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Cidades Inteligentes e Cidades Justas

Arquiteto e urbanista, é livre-docente pela FAU-USP. É professor do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP e do Programa de Mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE.
Publicado em 22.08.2019, às 6:14 pm

Muito tem se falado de cidades inteligentes nos últimos anos. O conceito é frequentemente associado aos avanços tecnológicos, big data, mobilização de informação vinda dos usuários de smartphones, e da internet móvel. Embora essas ferramentas sejam novas, a utopia de que esses avanços resolverão os problemas da cidade e da sociedade é algo bem antigo. Isso precisa ser problematizado, para que as nossas cidades sejam capazes de aproveitar as novas tecnologias de forma produtiva.

A própria ideia de que as cidades têm condições de “resolver” seus problemas é equivocada. Aquelas que se metropolizam – e mais ainda as do sul global como São Paulo, Lima, Cairo, México, Delhi – são artefatos complexos e em permanentes tensões, e em transformação muitas vezes vertiginosa. Novos problemas apresentam-se, os problemas antigos persistem.

São cidades desestabilizadas por condicionantes externas como crises econômicas, por ondas de protestos, surgimento de novos movimentos sociais, novos arranjos corporativos, mudanças no mundo financeiro. Os problemas  específicos das cidades – sejam de habitação, mobilidade, emprego, saneamento – podem ser reequacionados e provisoriamente estabilizados. As aspirações sociais crescem e se sofisticam e, em poucos anos, uma solução que parecia eficaz deixa de ser suficiente.

Mesmo se essas soluções definitivas fossem possíveis, elas não passariam exclusivamente pelas novas tecnologias. Elas são fundamentais – já não conseguimos mais pensar em cidades sem aplicativos como o Waze, ou Uber. É um conforto termos a possibilidade de acompanhar o ônibus que queremos pegar se aproximando em tempo real. Mas essas novas ferramentas não são suficientes para atingirmos as necessárias mudanças estruturais.

Sabemos que o acesso às tecnologias é sempre desigual. Se não enfrentarmos as desigualdades das nossas cidades, estaremos perpetuando situações de segregação e injustiça. Proponho que a noção de cidades inteligentes seja sempre acompanhada da busca por uma cidade justa. A cientista política Susan Fainstein publicou em 2011 “The Just City”, livro que considero fundamental. Na obra, a autora se pergunta como é possível construir uma cidade melhor sem que precisemos destruir o mundo atual e começar do zero. Ações e intervenções que levem a uma cidade mais justa precisam responder a alguns princípios: o da equidade, da democracia, da diversidade. Apontou também a dimensão da sustentabilidade, mas não se aprofundou nessa temática. Fainstein defende que o primeiro deles – a equidade – deve ter primazia sobre os demais. 

Equidade, diversidade, democracia, sustentabilidade são categorias que devem estar presentes em qualquer intervenção que fazemos nas cidades, se nosso objetivo é torna-las lugares melhores para todos. São, portanto, categorias que devem estar sempre presentes quando pensamos em cidades inteligentes, em cidades conectadas, na incorporação de novas tecnologias nas cidades. O lastro de nossas reflexões sobre as cidades deve ser a justiça, e as novas tecnologias devem ser tratados como alguns dos meios e mecanismos para atingir uma cidade melhor.  

Renato Cymbalista, arquiteto e urbanista, é livre-docente pela FAU-USP. É professor do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP e do Programa de Mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE.

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