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Sustentabilidade

Brasil se automutila com lixo e negligência

Os Gêmeos
Grafite de Os Gêmeos sobre o desastre de Brumadinho
Mariana Barros é cofundadora do Esquina / mariana@esquina.net.br
Publicado em 26.01.2019, às 8:12 am

O Brasil é um país de sorte. Não estamos na rota de furacões, nunca tivemos a costa invadida por tsunamis e, exceto por alguns tremores de baixa intensidade, não sabemos o que é um terremoto. Não temos vulcões em atividade, tampouco sofremos com nevascas. O regime de chuvas é mais ou menos previsível e condizente com diversas culturas de espécies vegetais. Nossas matas também vão bem, historicamente marcadas pela diversidade e exuberância. Parece que o maior vilão ambiental do país é mesmo a negligência.

A tragédia ocorrida ontem em Brumadinho é a reprise de um filme de terror ao qual assistimos com uma frequência que vai se tornando mais assustadora do que o próprio roteiro. O desastre de Mariana, soterrado pela descaso antes, durante e depois do ocorrido, volta a ser assunto. Mas ser assunto é pouco quando o que está em jogo são vidas do presente e das gerações futuras.

O desmatamento na Amazônia não para de crescer, elevando as temperaturas e acelerando as mudanças climáticas. Grandes metrópoles insistem em fazer de suas águas um lixão a céu aberto. Baía de Guanabara, rios Pinheiros e Tietê e tantos outros depósitos de restos mantidos por décadas sem uma busca de solução efetiva que, como já falamos aqui, só depende de vontade política. E aí vem nosso outro grande problema, a falta de saneamento básico, algo sobre o qual ninguém quer saber, mas que está na raiz da mortalidade infantil e do cenário insalubre de milhares de comunidades pelo país todo. Também falamos sobre isso aqui.

O episódio de Brumadinho é de responsabilidade da Vale, envolvida no desastre de Mariana por ser uma das controladoras da Samarco. Mas é bom lembrar que há no país muitas outras grandes empresas operando com capacidade de causar grandes estragos, especialmente nos setores de mineração, petróleo, óleo e gás, agronegócio. Será que estão sendo fiscalizadas como se deve? Quando se trata de meio ambiente, estamos todos no mesmo barco — barco que, não fosse por tanto desdém, poderia estar navegando em águas tranquilas em vez deste trágico lamaçal.

Os problemas se somam. Temos governantes e parlamentares que nunca priorizam programas de saneamento nem despoluição e muitas vezes são coniventes com o desmatamento, uma população acostumada a ver sofás e pneus atirados em córregos como se esses objetos se desintegrassem no ar, agências reguladoras incapazes fazer o que tem de ser feito, muitos servidores públicos bem intencionados trabalhando em condições precárias de estrutura e orçamento, diversos órgãos de fiscalização sem fiscais, casos de corrupção em todos os governos e todas as esferas, além de muitos empresários que, por omissão, ganância ou falta de capacidade, passam por cima do bem comum. Outros Brumadinhos virão a acontecer enquanto o Brasil se auto mutilar com lixo e negligência.

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