Publicidade
Mobilidade

Prefeitura recria fronteiras, atrapalha apps e não ajuda táxis

Dan Gold / Unsplash
Homem dirige usando aplicativo
Mariana Barros é cofundadora do Esquina / mariana@esquina.net.br
Publicado em 16.01.2019, às 6:55 am

O prefeito Bruno Covas (PSDB) conseguiu aprovar, no dia 26 de dezembro, a reforma da previdência dos servidores municipais. O projeto era considerado condição para reduzir o déficit que a cidade enfrenta. Segundo o próprio prefeito, se nada fosse feito, até o pagamento de salários estaria ameaçado nos próximos meses.

Covas tenta melhorar a situação financeira enquanto já lida com outra fatura: as apresentadas pelos apoiadores que garantiram a aprovação do projeto de reforma. O primeiro desta fila é o vereador Adilson Amadeu (PTB), uma das principais lideranças de taxistas da cidade. Como recompensa por seu voto a favor, ele foi agraciado com um decreto assinado pelo prefeito no dia 4 de janeiro que reformula as regras para os serviços de motorista por aplicativo.

LEIA TAMBÉM:

+ Pesquisa Origem Destino indica potencial avanço de apps sobre ônibus

+ Apps querem encurtar as viagens oferecendo mais compartilhamento

+ Onda de suicídio de taxistas deixa Nova York em alerta

Curioso que o documento não traz benefícios diretos aos taxistas. Nada que os ajude a modernizar o serviço que prestam ou a ganhar mais. Poderia, por exemplo, permitir aos táxis o uso da tarifa dinâmica, para cobrarem mais quando a demanda por corridas superar a oferta. Ou exigir que os trajetos sejam definidos pelo Waze, dando maior transparência, segurança e apontando o melhor caminho em tempo real, algo que muitos usuários consideram a principal vantagem dos apps. Poderia, ainda, pleitear uma medida ousada já discutida em cidades como Nova York: a criação de um fundo, bancado pelas empresas de aplicativo, voltado a prestar socorro financeiro a taxistas endividados com alvarás. Já falamos sobre isso aqui.

Em vez de ajudar os taxistas, o decreto atrapalha a vida dos motoristas que prestam serviço por aplicativo. Afinal caberá a eles (e não às empresas) cumprir a maior parte das novas exigências, como só atuar na cidade correspondente à placa do carro ou obter a licença batizada de Conduapp, em referência ao Condutáxi exigido aos taxistas.

Gigantes do setor como Uber, 99 e Cabify nem frota têm, quanto mais motoristas contratados. Não serão afetadas por placas ou licenças que cada profissional deva obter. No máximo, ajustarão o já inflado quadro de colaboradores.

Preocupadas com o decreto estão as locadoras de veículos, que têm um grande filão neste setor e licenciam seus veículos fora dos grandes centros. Segundo relatório da consultoria XP, 20% dos carros alugados no país servem a motoristas por aplicativo. Mais preocupadas ainda estão as cerca de 500 mil pessoas que dirigem para terceiros nestas plataformas e quase diariamente fazem corridas para Osasco, Guarulhos, ABC e tantos outros municípios. Se a rede de transporte público atravessa essas fronteiras, por que aplicativos não podem? Nem táxis cobram adicional quando o trajeto termina em outra cidade (até 2016, a taxa era de 50% do valor da corrida). Vai ser difícil explicar ao usuário do app por que ele terá de chegar a pé ao destino ou chamar outro veículo. E qual o benefício mesmo para as cidades?

Tanto Amadeu quanto o prefeito alardearam o caráter fiscalizatório do decreto. De fato, o Conduapp, se bem implantado, tem todas as condições de oferecer mais segurança aos usuários. Mas para isso ele precisa ser um documento digital, que utilize uma base de dados primários e funcione de forma simples e transparente. Por sinal, deveria ser aplicado o mesmo modelo ao Condutáxi. O que está em jogo é a chance de fazer algo novo por toda a cidade ou algo velho apenas para alguns.

Principais tags desta reportagem:





Publicidade
Outros destaques

Bitnami