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Mobilidade

Franceses se preparam para Natal magro pós-coletes amarelos

REUTERS/Christian Hartmann / Estadão
Protesto de coletes amarelos em Paris, em 15 de dezembro
Carolina Melo é jornalista e diretora do Chez Fanch, um bar a queijos e vinhos em Rennes, na França
Publicado em 21.12.2018, às 8:14 am

Há cinco semanas, a rotina dos franceses foi alterada por um movimento que se espalhou rapidamente em todo o país: os coletes amarelos. Com uma lista híbrida de reinvidicações, tendo como contestação principal o aumento dos impostos sobre o combustível, os manifestantes são caracterizados pelo uso dos coletes de cor fluorescente exigidos como item de segurança obrigatório nos veículos franceses. O que temos visto nas principais manchetes do mundo são imagens de manifestações, muitas vezes agressivas, com carros queimados pelas ruas, comércios deteriorados, policiais agredidos e até mesmos alguns mortos. O fato é que essas ações não foram obrigatoriamente realizadas por membros do movimento, mas por um grupo de pessoas que se aproveita da situação para provocar o caos — conhecidos pelos franceses como “casseurs” (os “quebradores”, em tradução livre). No meu dia a dia, o que ocorre está longe de ser violento, mas gerou, sim, transtornos na minha rotina.

Na cidade onde moro, em Rennes, no noroeste da França, senti os primeiros efeitos do movimento quando, em novembro, fui de carro a um supermercado mais afastado do cento da cidade. A ideia era abastecer no posto do próprio local e fazer as compras da semana, mas chegando lá havia um comunicado explicando que o estabelecimento estava fechado devido à falta de combustível. Eu já sabia que os manifestantes haviam bloqueado o acesso de alguns dos principais depósitos que abastecem a região e até previa uma fila de espera, mas não imaginava que as bombas ja estariam secas. Tentei mais dois postos, com a reserva já apitando, e o cenário foi o mesmo. Fui obrigada a voltar para casa, sem compras e com medo de ficar no meio da rua. Dois dias depois, fui a pé até um shopping com minha filha e no momento de sair percebi que todos os acessos haviam sido bloqueados como medida de segurança porque um grupo de coletes amarelos: estava passando por ali. Fiquei tranquila e dei uma volta, achando que em alguns minutos a saída seria liberada. Mas só pude voltar para minha casa meia hora depois, quando minha filha ja estava choramingando de fome.

Os efeitos do movimento são ainda mais visíveis quando o assunto é o comércio. Converso diariamente com donos de lojas próximas ao meu bar e todos estão extremamente preocupados com as vendas do fim do ano. O que era pra ser um período que atrai muitos consumidores virou um enorme buraco no orçamento. No sábado passado, o dono de uma joalheria no centro da cidade me disse que, nos últimos 30 anos de comércio, jamais viu um mês de dezembro tão calmo como este. O que ocorre é que, com exceção de quem mora perto do centro, onde a maioria das lojas se concentra, o acesso das pessoas ficou muito restrito. Quem esta acostumado a vir até aqui para fazer compras porque mora em cidades menores, no interior, utilizaram o e-commerce, com medo de ficarem bloqueados na estrada. Em contrapartida, as lojas físicas foram obrigadas a entrar em promoção antes do tempo, que ocorre tradicionalmente em janeiro — elas se renderam até mesmo ao Black Friday, costume americano geralmente ignorado entre os franceses. Mas, em alguns casos, nem isso salva — um colega, dono de loja de roupas masculinas, acha que será obrigado a fechar as portas no ano que vem. O conselho Nacional de Centros Comerciais da França ja anunciou, ate o momento, um prejuízo de 2 bilhões de euros no comercio de todo os país.

Na semana passada, quando fui de carro com minha família até uma cidade do interior vi, de longe, os estacionamentos de centros comerciais que costumam estar lotados com poucos carros parados. Em algumas rotatórias havia acampamentos de manifestantes — alguns deles se aqueciam próximos a uma fogueira feita ali mesmo, perto de uma estrada. Em outra viagem que fizemos de carro até Paris, no fim de novembro, passamos por pedágios vazios, com passagem liberada e gratuita para todos — uma cena incomum.

Nem mesmo quem escolhe o trem como transporte está livre de transtornos. Há poucas semanas, recebi em casa um casal de amigos que veio de Paris e trocou o carro pelos vagões do trem, já sabendo que as estradas poderiam estar bloqueadas. O horário previsto de chegada era de 18h30, mas vinte minutos antes eles nos telefonaram para avisar que chegariam bem mais tarde. O motivo do atraso? Os trilhos do trem haviam sido bloqueados com rochedos pelos manifestantes. O condutor ja havia sido informado previamente e pode fazer uma parada antes de atingir os obstáculos, mas os passageiros ficaram confinados durante duas horas ate a circulação voltar ao normal e, enfim, chegarem ao destino.

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