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Arte e cultura

Por que na França a babá pode sair mais cara que o aluguel

Tim Bish / Unsplash
Bebê bocejando
Carolina Melo é jornalista e diretora do Chez Fanch, um bar a queijos e vinhos em Rennes, na França
Publicado em 11.12.2018, às 8:54 am

Eu nunca imaginei que o dia a dia com um bebê na França seria tão diferente de como ocorre no Brasil – a começar pela contratação da babá. Moro há dois anos e meio em Rennes, na Bretanha, com meu marido e filha. Descobri, logo no início da minha gravidez, em 2016, que para encontrar alguém disponível, eu deveria começar a procura desde muito cedo, antes mesmo de a minha barriga ficar saliente. O processo, que pode envolver filas de espera, foi uma surpresa pra mim, mas não é nada a que as famílias francesas já não estejam acostumadas.

A corrida para encontrar uma babá na França, mais conhecida como ‘’nounou’’ (pronuncia-se ‘nunu’), existe porque a oferta é baixa . Uma pesquisa divulgada no início deste ano pelo órgão Allocation Famillialles, do governo da França, mostrou que 55% das crianças com menos de três anos – faixa etária que ainda não frequenta a escola — são cuidadas por um dos pais. O relatório também apontou que, para cada 100 crianças desse grupo de idade, há 33,1 vagas disponíveis com babás.

Pode parecer estranho associar a babá ao número de vagas, mas aqui, na maioria dos casos, a profissional atua como uma espécie de escolinha. Ela recebe em sua casa – equipada com berços e brinquedos — até quatro crianças de famílias diferentes dentro dos horários comerciais. É responsabilidade dos pais o transporte da criança até o local e, na maioria dos casos, o preparo da refeição , que deve ser levada diariamente junto com os objetos pessoais do pequeno. A função da babá, neste caso, é exclusivamente cuidar do bebê, ela não se transforma em uma doméstica nas horas vagas – trata-se de uma prestadora de serviço, sem a relação de patrão e empregado tão conhecida no Brasil.

No caso da minha família, em que eu e meu marido somos donos de um bar, com horários bem diferentes dos comerciais, tivemos de recorrer a uma modalidade ainda mais rara de babá: uma pessoa que venha até a nossa casa. Fomos obrigados a contratar uma empresa pra isso e, quando finalmente encontramos alguém, veio a conta no final do mês : 1.500 euros (cerca de R$ 6.690).

O que eu pago por esse serviço é praticamente o dobro do meu aluguel. Moro em um apartamento de 75 metros quadrados extremamente bem localizado (no centro da cidade, considerado área nobre nas cidades europeias), com elevador, garagem e varanda, o que não é comum por aqui. Para efeito de comparação, o salário mínimo da França é de cerca de 1.100 euros para uma média de 35 horas de trabalho semanais. A pessoa que cuida da minha filha vem à minha casa quatro horas por dia, de terça a sábado, totalizando 20 horas por semana. Ainda sobra tempo pra ela trabalhar com outras famílias – e o que não falta é demanda. Ela me conta com certa frequência sobre propostas que recusa porque achou que as crianças eram “muito trabalhosas”.

Um dos motivos que justifica a pouca oferta das babás está no fato de que nem todo mundo pode exercer a profissão. Para tornar-se “assistente maternal”, o termo oficial, é preciso fazer um curso de formação que aborda assuntos como higiene e segurança da criança – elas sabem, por exemplo, realizar as manobras necessárias caso o pequeno se engasgue com a refeição. Também é exigido ter domínio da língua francesa, boas condições físicas e ficha limpa. Somente preenchendo todos os requisitos que a pessoa ganha a autorização da prefeitura para exercer a função, que deve ser renovada a cada cinco anos. Caso não obtenha essa licença e atue mesmo assim, corre o risco de pagar multas pesadas.

A outra razão que faz da babá uma raridade é o fato de que a cultura francesa dispensa esse tipo de serviço quando ele não é extremamente necessário. Se não for para cuidar da criança de uma forma pontual, durante a ausência dos pais, sua presença não é requisitada. Tanto é que a babá só é solicitada a partir do fim da licença maternidade: antes disso os pais se viram sozinhos com o recém-nascido. É inconcebível entre os franceses o conceito de ter alguém cuidando de seu filho no momento de lazer, enquanto os pais passeiam no shopping ou comem em restaurante, por exemplo.

Como consequência, a França é um pais extremamente agradável para se viver com crianças. Quando vamos comer em restaurantes, os garçons ja sabem dobrar o carrinho de bebê e prontamente oferecem uma cadeira adaptada para a refeição dos pequenos. Ja fomos com nossa filha a um restaurante estrelado (e bem chique), que nos acolheu muito bem e se propôs a esquentar a refeição dela antes mesmo de nos servir a bebida – tratamento muito diferente do que tivemos em alguns estabelecimentos de mesmo porte em Nova York, onde senti a constante impressão de estar incomodando as outras pessoas.

A minha filha, de 16 meses, nos acompanha a exposições de arte, degustação de vinhos e bares tranquilos – tudo com muita responsabilidade e respeito aos seus limites. Quando vou comprar roupas, ela também vem comigo enquanto experimento tudo — as vendedoras nem fazem cara feia e ate oferecem a maior cabine de todas. Além disso, os ônibus têm espaço reservado para bebês e os estacionamentos de supermercados e shoppings oferecem uma vaga especial para as famílias – localizada próxima à entrada do local e com tamanho superior às demais, para não precisarmos instalar o bebê na cadeirinha apertados entre um carro e outro.

Esse estilo de vida permanece mesmo quando os bebês crescem. A maioria das crianças de até 11 anos não frequenta a escola às quartas-feiras – o descanso no meio da semana tem o objetivo de aumentar a produtividade nas aulas. Como não é fácil contratar uma babá para apenas um dia da semana, os pais costumam fazer hora extra no trabalho nos demais dias para aproveitar esse momento com seus filhos. É comum também que a quarta-feira seja um dia dedicado a outras atividades, como curso de línguas e esportes.

Os franceses sabem fazer algo que no Brasil é muito difícil: lidar com suas crianças com naturalidade. Essa convivência mais fluida não só torna a rotina de todos (pais e não pais) mais fácil e prazerosa como também evidencia que desde muito cedo os pequenos são considerados parte da sociedade. E isso faz uma diferença enorme em relação ao tipo de cidadão ou cidadã que essas crianças irão se tornar.

 

*Carolina Melo é jornalista e diretora do Chez Fanch, um bar a queijos e vinhos em Rennes

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