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Arte e cultura

O maior confronto esportivo do mundo é uma disputa entre bairros

Reprodução
La Bombonera, estádio do Boca Juniors em Buenos Aires
Alberto Bombig é jornalista e editor executivo do Estadão
Publicado em 28.11.2018, às 11:50 am

É um enorme castigo para os argentinos a histórica e já épica finalíssima entre seus dois times de futebol mais populares acontecer fora de Buenos Aires. A medida tomada pelas autoridades desportivas obrigando River Plate e Boca Juniors a decidir a Libertadores fora da Argentina penaliza não apenas essas duas agremiações esportivas, mas também a cidade mais futebolística do mundo.

Por outro lado, a final terá tudo para ensinar ao mundo a lição do escritor russo Tolstói: se quer ser universal, comece por pintar a sua aldeia. O futebol na Argentina é isso, uma disputa entre aldeias e, por isso, talvez seja um dos mais universais do mundo em termos de paixão e significados.

Segundo a Associação Argentina de Futebol, clubes filiados a ela possuem 19 estádios na capital dos argentinos. Outros 17 estão situados na área conurbada conhecida como Grande Buenos Aires. Não é exagero afirmar que cada bairro tem o seu time. Muitos deles, inclusive, carregam o nome desses bairros, como o Boca Juniors, situado em La Boca, e o San Lorenzo de Almagro, em Almagro.

Em La Boca, o bairro de origem operária onde o clube homônimo mantém desde os anos 1920 o seu estádio, o mítico La Bombonera, (por conta da semelhança com uma caixa de bombons), também nasceu o River Plate, que no final de 1938 se mudou para Núnez, área habitada pela classe alta de Buenos Aires. Às margens do Rio da Prata, o River tem o seu Monumental de Núnez, que caiu feito luva para o apelido de “Milionários” do clube.

Nesse caso, as características sociais desses dois bairros contribuiu para acirrar ainda mais a rivalidade entre as duas equipes e simbolizar as divisões geográficas de classe na capital argentina. Também na arquitetura esses contrastes estão presentes. Se a caixa de bombons do Boca abriga 49 mil pessoas praticamente empoleiradas umas sobre as outras e tem na sua forma compacta um charme especial, o Monumental tem o gigantismo dos estádios construídos no Brasil de meados do século 20, como os projetos originais do Mineirão (Belo Horizonte), do Maracanã (Rio) e do Morumbi (São Paulo).

Há também disputas turbinadas pela proximidade entre os rivais.Em Avellaneda convivem, nem sempre de maneira pacífica, Racing e Independiente. Seus estádios, o Presidente Perón e o Libertadores da América, respectivamente, são próximos um do outro, a exemplo do que ocorre em Campinas (SP) com as casas de Guarani e Ponte Preta.

Segundo os historiadores e pesquisadores, Buenos Aires seguiu a tradição da Inglaterra, onde, no início do século 20, cada clube de futebol tinha seu campo e sua sede, espaços aglutinadores da comunidade de imigrantes e até de categorias profissionais e de sindicatos de trabalhadores. No Brasil e em outros países, diferentemente, muitos times se beneficiaram de estádios construídos pelo poder público, onde vários clubes passaram a jogar, e abrirão mão da casa própria.

De acordo com os registros da Associação Argentina de Futebol, Buenos Aires é a cidade do mundo com o maior número de estádios, 19, com capacidade superior a 10 mil pessoas, seguida por São Paulo, com 15 estádios, Londres, com 12, Rio de Janeiro, com 9, Madri, com 5. A capital argentina, porém, é a menor delas em população. Outro diferencial dos argentinos é que eles frequentam assiduamente as arquibancadas. Apoiar o time do seu bairro é uma obrigação tão sagrada quanto frequentar os cultos é para os religiosos.

Um dos melhores filmes argentinos de todos os tempos, “O Segredo dos Seus Olhos”, imortalizou uma noite de futebol portenha. No estádio do Huracán, no bairro Parque Patrícios, o diretor Juan Jose Campanella filmou um plano-sequência de quase 6 minutos. A câmera começa do alto, vai descendo até a arquibancada, no meio dos torcedores e vai parar dentro de campo.

Por tudo isso, River e Boca, assim como os demais times portenhos, têm nas ruas, nos bairros e na gente de Buenos Aires sua razão de existir. Nesta final da Copa Libertadores da América-2018, infelizmente, o “maior clássico de bairro de mundo”, como os argentinos gostam de se referir a esse confronto, deverá ocorrer fora da cidade que o consagrou. Que ele dê ao mundo um exemplo de civilidade e de espírito esportivo para mostrar toda a grandeza de sua história e da América do Sul.

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