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Arte e cultura 01.11.2018 — 6:02 am

Como esperar na sala de espera

Mulheres usam aparelhos celulares
Tamara Klink é estudante de Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP, coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube

Se eu ainda tivesse bateria, teria perdido uma cena assustadora.

Éramos 3. A criança escalava e escorria da poltrona, e empilhava no assento, uma por uma, as revistas da sala de espera. 90% da mãe estava nos e-mails, 10% no rabo de olho que fisgava a filha com chamas nas pupilas.

“Querida, mamãe já pediu pra você ficar quietinha.”
Falava olhando pra tela do telefone. A Querida virou pra mim. Tentou iscar minha compaixão pelo projeto audacioso que punha de pé. A torre de periódicos era muitas vezes maior que ela. Eu sorri, para saudar sua criatividade e persistência ao inventar uma brincadeira num lugar tão asséptico e frio.
“Agora põe tudo no lugar e senta.”
A criança se contorcia pra tirar da mãe uns pingos de atenção. Perdia de lavada pro peso dos e-mails urgentes, das mensagens impacientes, pro hábito de ser ininterruptamente acessível, incansável, disponível.
Minha idade devia ser a média da idade delas. Me sentia constrangida por não ter o que fazer e estar ali. Sozinha e inteira. Pensei em cochilar, atender ao tédio e diminuir o atraso do sono. Procurei um lugar para olhar e disfarçar o tanto que eu olhava para a menina. Puxar um assunto com a mãe? Quebrar o gelo seria a mais estranha das alternativas quando a norma de conduta manda parecermos sempre ocupados. Aceitamos ser meias companhias. Aceitamos que os encontros só aconteçam durante as refeições. Aceitamos compensar a tensão e a solidão esvaziando garrafas de cerveja. Aceitamos chamar de ‘amiga’ pessoas de quem lemos só a manchete. Aceitamos carregar um órgão a mais no bolso, descartável como tantos prazeres. E aceitamos que a vida assim seja. Ninguém quer ser o chato do papo-cabeça.
“Agora, brinca aqui.”
A mãe desenterra da bolsa uma tela do tamanho da criança e a entrega como quem diz CALA BOCA. O sorriso da menina rasga o rosto e ela abraça o tablet como se ele fosse de pelúcia. Ela escala a própria torre e senta sobre as revistas. Tocando num volume baixinho, sem atrapalhar nem a mãe nem a mim, os joguinhos a sugam para um universo paralelo.

Na sala de espera, esperamos o tempo passar. Sem notar que ele passa.

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