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Espaços Públicos 04.10.2018 — 7:10 am

A diversidade e a negritude em São Paulo

Jazmin Quaynor / Unsplash
Mulher segura arranjo de flores
Day Rodrigues é cineasta, produtora cultural, educadora e escritora. Pesquisa feminismo interseccional, cultura popular e as histórias das diásporas negras. Dirigiu o episódio Racismo e Resistência, da série Quebrando o Tabu, do Canal GNT

“Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para
virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta,
todas essas mulheres juntas aqui devem ser capazes
de consertá-lo, colocando-o do jeito certo novamente.”
(Sojourner Thuth* – “E não sou uma mulher?”)

 

Depois que passei a trabalhar com a linguagem audiovisual, percebo a necessidade de repaginar os olhares para a romantização das diferenças, que muitas vezes são carregadas de violências pela desumanidade de quem não mensura o que é racismo, misoginia e LGBTfobia, e como se cruzam.  Explico melhor: fui cobrir, com o apoio do meu amigo João Paulo, o ato da hashtag “Ele Não” (#EleNão), que aconteceu no Largo da Batata no último sábado, 29 de setembro, para as redes sociais do Quebrando o Tabu. Foi um dia bastante importante pela mobilização de mulheres de várias idades e orientação sexual. Havia muitos gays também, porém, notei uma quantidade bem menor de pessoas negras, no geral.

Daí, a minha pauta naquela tarde: cadê a população negra? e por que ele não?

Com certeza, um dos motivos para quem esteve ali dizia respeito às vidas negras, porém, a segregação socioespacial paulistana refletiu na manifestação. Segundo a extinta Secretaria Municipal de Promoção e Igualdade Racial, numa pesquisa de 2015, regiões nobres como o distrito de Pinheiros, o percentual de negros é de 7,3%. E como o problema do racismo não é uma questão da sociedade brasileira – aqui faço uma ironia -, mas, tratada como algo individual e não sistêmico, não à toa, a adesão da população negra pouco se dará em lugares majoritariamente da branquitude.

E quando penso nos significados de cidades, e para escrever esse texto de estreia, tudo fica mais vasto ainda. Sempre me chama a atenção a pesquisa da arquiteta e urbanista Joice Berth, por exemplo, quando em seus textos e falas públicas traz o problema do direito à cidade vinculado por questões como machismo e racismo institucional. Afinal, de quem é a rua? Quem mora bem? Quem tem medo de sair à noite e sofrer violências? Essas são perguntas que me faço diariamente, pelo ativismo – porque sou feminista negra – ou pelo fato simplesmente de existir.

Assim, além de uma questão mesmo pelo trânsito do meu corpo, de pensar como me sinto quando estou sozinha às 23h perto da minha casa no centro, ou quando estou na Vila Madalena e só reconheço um território habitado por pessoas brancas, faço as mediações e levanto as perguntas: quem pode hoje morar ou ocupa para morar e quem não mora em casas? Todo esse universo complexo e dinâmico da capital paulista são novos para mim. Nascida e criada em Santos, sempre morei e vivi perto do mar. Os canais de lá até parecem equacionar as desigualdades, que se mescla com as ruínas dos tempos e elites do café.

E por esse fato, nesse momento de perdas de direitos, aumento da pobreza e de pessoas em situação de rua, fica a minha certeza de que para pensarmos comunicação e estéticas, num caminho que implique informação e processos pedagógicos, fazer rede é político e educacional. O antirracismo precisa ser prioridade. Ou seja, eu sou da geração que além de acessar a universidade, somado às leis de obrigatoriedade de ensino de cultura afro-brasileira nas escolas, conquista do movimento negro, pude entrar em contato com intelectuais e mulheres negras, e aprender com a Djamila Ribeiro (através das redes sociais, também), afinal, a importância do lugar de fala e suas referências contemporâneas e ancestrais negras.

Tudo isso num processo de ativismo e militância, não aquela tão criminalizada pela mídia hegemônica. Só que ainda temos muito trabalho pela frente, porque uma criticidade intelectual perante as questões étnico-raciais está ainda restrita. A falta de representatividade de quem escreve as pautas, editoriais e curadorias é normativa/ racista.

Então, quando hoje tenho a possibilidade de ocupar a cadeira da diretora, penso numa relação do fazer artístico como uma prática que tem também uma base conceitual e política. E isso aconteceu com as políticas de cotas nas Universidades públicas, outra conquista dos movimentos negros, que permite uma divulgação de teóricos como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Beatriz do Nascimentos, Nilma Lino Gomes. São pensadores muito importantes, sobre feminismo negro, representatividade negra nas artes, lugares de poder, entre outros.

Portanto, quando penso em temas como cidades e diversidade, busco compreender como as histórias se dão, de personagens documentais, e quais as narrativas positivas das minorias no poder habitam os nossos imaginários, não reproduzindo estereótipos, pela produção cultural da programação de centros culturais, teatros, escolas de artes e coletivos artísticos. Por receber esse convite do site Esquina, pela jornalista Mariana Barros, gerou um desejo antigo de poder escrever sobre o meu ofício primeiro, como produtora cultural, mas, mais do que isso, como quem gostaria de contar causos, das resistências, pela luta e transformação de todes, com arte e cura. Não haverá diálogo possível enquanto não pudermos falar abertamente do que sonhamos, e sobre quem não sonha, como aprendi com a publicitária e mulher trans Neon Cunha, em sua última palestra numa conferência do evento SSEX BBOX (setembro/ 2018). Estar a bordo aqui trouxe a chance de buscar e habitar outras SP’ s.

 

Day Rodrigues é cineasta, produtora cultural, educadora e escritora. Natural de Santos (SP), reside hoje na cidade de São Paulo. Foi premiada em novembro de 2015, com o Troféu Zumbi dos Palmares, do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Santos, pelos projetos culturais realizados na cidade. Com licenciatura em Filosofia e especialização em Gestão Cultural, pelo Centro de Pesquisa e Formação do SESC, pesquisa feminismo interseccional, cultura popular e as histórias das diásporas negras. Produziu e escreveu o argumento para o documentário Ouro Verde: a Roda de Samba do Marapé, dirigiu os curtas Lari e Para Costurar Folhas Secas, junto aos jovens do Instituto Criar; e o videoclipe da música Papo Reto, da dupla Dani Nega e Craca. Em julho de 2017, no XXI Cine PE – Festival Audiovisual (Recife), foi premiada pelo documentário Mulheres Negras: Projetos de Mundo (direção de Day Rodrigues e Lucas Ogasawara), nas categorias júri popular e direção. No último ano, fez parte da equipe de pesquisa do grupo de teatro Coletivo Negro, para o espetáculo F.A.L.A – Fragmentos Autônomos sobre Liberdades Afetivas e fez a direção do episódio chamado Racismo e resistência, para a série Quebrando o Tabu, no Canal GNT.

 

 

*Sojourner Thuth: Nasceu escrava em Nova Iorque, sob o nome de Isabella Van Wagenen, em 1797, foi tornada livre em 1787. A escravidão nos Estados Unidos, entretanto, só foi abolida nacionalmente em 1865, após a sangrenta guerra entre os estados do Norte e do Sul, conhecida como Guerra da Secessão. Sojourner viveu alguns anos com uma família Quaker, onde recebeu alguma educação formal. Tornou-se uma pregadora pentecostal, ativa abolicionista e defensora dos direitos das mulheres. Em 1843 mudou seu nome para Sojourner Truth (Peregrina da Verdade). E o trecho citado foi proferido como uma intervenção na Women’s Rights Convention em Akron, Ohio, Estados Unidos, em 1851.

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