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Economia Urbana 03.10.2018 — 6:37 am

Onda de suicídio de taxistas deixa Nova York em alerta

Taton Moise / Unsplash
Táxi amarelo em Nova York

Até pouco tempo atrás, ser taxista em Nova York era a porta de entrada de pessoas sem ensino superior para a classe média. Se trabalhassem duro, esses motoristas — a maioria deles imigrantes sem muitas opções de trabalho — conseguiriam obter renda suficiente para mandar os filhos para a faculdade, pagar o aluguel de uma casa decente e ainda garantir uma aposentadoria. Mas, desde a chegada de aplicativos como Uber, Lift e outros, o destino destes profissionais é cada vez mais incerto. A angústia é tanta que seis deles cometeram suicídio apenas no último ano. Deprimidos, relataram em bilhetes ou a pessoas próximas o desespero de se verem em um beco sem saída, ganhando cada vez menos, cheios de dívidas e sem perspectiva de se aposentar um dia.

A mudança foi rápida e drástica. Em 2014, o alvará de taxista em Nova York valia US$ 1 milhão. Em janeiro deste ano, foram negociados por US$ 200 mil. O número de concessões a taxistas fixado pela prefeitura é de 13.600, mas não há teto para o número de motoristas de aplicativos, que ultrapassa 60.000 na cidade. Há os que dirigem apenas por algumas horas, disputando com quem trabalha em tempo integral.

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O aumento da concorrência fez a renda cair para todos. Uma pesquisa feita pela Associação de Motoristas Independentes, que representa os motoristas de aplicativos, mostra que 57% dos entrevistados ganham menos de US$ 50.000 por ano (média de US$ 4.166 ao mês) e 22% ganham menos de US$ 30.000 por ano (média de US$ 2.500 ao mês).

Já os taxistas sofrem com o agravante de terem se comprometido com pesados empréstimos anos atrás para financiar seus alvarás. As dívidas consomem boa parte do que ganham e se prolongam por décadas, até que consigam zerar as centenas de milhares de dólares em empréstimos feitos por algo que vale cada vez menos. O drama tem sido assunto de reportagens como esta e esta.

Sociólogos afirmam que, não bastassem as perdas financeiras, esses profissionais também sofrem com baixa auto estima, dada a profusão de motoristas neófitos que por aplicativo encontram os mesmos atalhos que eles levaram anos de experiência até descobrir.

Enquanto prefeitura e associações fazem campanhas para que os taxistas falem mais abertamente de sua saúde e tratem sintomas de depressão sem estigmas, outros grupos defendem a criação de uma assistência financeira. O Lyft propôs a implantação de um fundo pago pelas empresas de tecnologia, mas como contrapartida quer livre mercado para atuar. Por enquanto, o Conselho Municipal gostaria de ter um fundo voltado a atender taxistas e, ao mesmo tempo, restringir a rápida expansão dos aplicativos.

Outro caminho seria a prefeitura resgatar os alvarás, comprando-os de volta dos taxistas, mas os cofres públicos podem não suportar a operação. Um projeto de lei propõe que motoristas de aplicativos paguem US$ 2.000 por ano à prefeitura. De outro lado, vereadores argumentam que cabe às empresas arcarem com mais impostos para evitar situações extremas como as que a cidade tem visto nos últimos meses. Qualquer que seja o ponto de vista, desenvolver políticas públicas para lidar com o problema é crucial. E precisa acontecer o quanto antes.

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