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Planejamento 02.10.2018 — 6:08 am

Por que os políticos deveriam priorizar as cidades

Randy Fath / Unsplash
Tabuleiro de xadrez
Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Mariana Barros, a incansável editora do Esquina, foi atrás dos candidatos a Presidência da República com uma entrevista programática e isonômica.

O resultado, formidável, é uma série de conversas que discute propostas, e onde é possível, pelo mesmo conjunto de questões, comparar as noções das candidaturas sobre qualidade de vida nas cidades, revitalização dos centros e, para além deles, como entendem o Governo, destacando a necessidade de projeto para contratação de obras e a preservação do Patrimônio Histórico, dada a tragédia no Museu Nacional e outros tantos exemplos.

A pergunta inicial, minha predileta, foi sobre a opinião do nosso urbanista e arquiteto querido Paulo Mendes da Rocha, propondo que o Ministério das Cidades seja entregue a um urbanista.

Gosto de questões retóricas. Se o ministro das Cidades será ou não um técnico, para mim é secundário. Fundamental é o Governo entender que cada vez mais vivemos nas cidades, e vendo as entrevistas notamos que o recado, pelo menos em tese, foi transmitido: sem urbanismo, qualquer outro esforço fica desagregado e perde tração.


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Três pontos – aqueles que estão no pódio de qualquer pesquisa sobre as demandas das pessoas – bastam para demonstrar como e por que.

Educação: sem saneamento básico não há escola que chegue. O corpo humano que sofre duas diarreias na primeira infância faz tamanho esforço para sobreviver que compromete para sempre a formação do cérebro. Depois disso pode botar o indivíduo em Harvard que não tem jeito.

O Brasil está na média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico em investimento em Educação. Mas nossos índices seguem abaixo da média. Por quê? Talvez faltem cidades para complementar a formação. Ou, como diz o nosso urbanista querido, “O caminho da escola já é a escola”.

Saúde: sem saneamento básico não há hospital que chegue. Metade das residências brasileiras não tem esgoto e nos melhores hospitais do país há avisos mil lembrando da importância de lavar as mãos.

Com as pessoas presas no trânsito, espremidas nos coletivos e respirando fumaça, não sobra tempo para se alimentar, dormir, conviver, espairecer, fazer o mínimo de atividade física. Não entender isso é negar o lema da saúde: prevenir é melhor (e mais barato) do que remediar.

A divulgação, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que visa aferir a qualidade de vida das nações, deveria servir para reflexão. Entre 188 países estamos em 79º lugar, abaixo da Venezuela. Quando a desigualdade social entra na conta, isto é, com os pobres estratificados, caímos mais 17 posições.

Segurança: a máxima do cobertor curto, muito usada para Orçamento, serve melhor ainda para espaços físicos. O Poder Público nunca conseguirá cobrir cidades demasiadamente espraiadas. A política de criar habitação em lugares distantes, em obediência ao menor preço é, no fim das contas, a mais cara. Não há infraestrutura, de esgoto a iluminação, de escola a posto de saúde, capaz de cobrir corpo tão vasto. O mesmo vale para a ronda das forças públicas e, antes delas, a chance da violência se instalar em um lugar é inversamente proporcional à quantidade de gente reunida, e a receita para tanto é básica: adensamento, habitação, comércio e serviços combinados, oferta de equipamentos de cultura e lazer.

O Esquina cumpriu seu papel nas eleições 2018. Em tese, os presidenciáveis estão comprometidos. Na prática, o ideal é que deem autonomia às cidades, que é onde as pessoas vivem. Mais Brasil e menos Brasília.

 

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

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