*

Mobilidade 12.09.2018 — 7:37 pm

A anatomia do medo nas grandes cidades: eleições e direitos urbanos

Suad Kamardeen / Unsplash
Mulher caminha em rua estreita
Clarisse Linke é diretora executiva do ITDP (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento)

Estamos em vias de decidir quem serão as pessoas às quais delegaremos o poder de tomar decisões importantes em nosso nome. É tempo de debate, de disputa e de negociação, mas o quadro geral não é muito animador. À medida que a campanha eleitoral avança, fica evidente que a exploração do medo se tornou uma plataforma lucrativa para alguns candidatos.

Não à toa, e considerando os enormes fossos sociais e os índices alarmantes de criminalidade, a agenda da segurança pública tem assumido importância central no debate. Grande pensador do nosso tempo, Zygmunt Bauman argumenta que os grandes centros urbanos se transformaram em territórios de medo e insegurança. Por isso, a arquitetura das metrópoles se tornou defensiva, multiplicando condomínios e incorporando bairros fechados. As casas perderam as fachadas ativas. As grades, os muros e uma série de mecanismos que restringem o contato com o outro engoliram os “olhos da rua”. O resultado é um espaço urbano que promove a segregação; e não o encontro, o medo; e não a celebração das diferenças. Muito espraiadas e socialmente segregadas, nossas cidades têm oportunidades de emprego, saúde e educação mal distribuídas pelo território. As administrações municipais pouco estimulam a formação de novas centralidades, os deslocamentos “roubam” das pessoas um tempo de vida que não será compensado, e comprometem valores significativos da produtividade econômica.

De acordo com indicadores disponibilizados pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil) na plataforma MobiliDADOS, em 10 regiões metropolitanas do país (Belém, Curitiba, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Distrito Federal, Salvador e Belo Horizonte) o percentual de pessoas que perde mais de uma hora no deslocamento para o trabalho é significativo. No Rio de Janeiro e de São Paulo uma a cada quatro pessoas demora mais de uma hora para chegar ao local de trabalho. No caso de São Paulo, Recife e Rio, a viagem para o trabalho dura mais de 40 minutos. Esses números refletem a diferença na estrutura de transporte disponível e na forma com as oportunidades de emprego estão distribuídas no território. A bicicleta, que poderia ser uma alternativa para deslocamentos de curta distância e para facilitar a integração com o transporte público, ainda é subutilizada e só aparece em práticas de planejamento incipientes, que se refletem em baixa cobertura da infraestrutura cicloviária nas cidades e insegurança no compartilhamento de vias.

Para as mulheres, deslocar-se por essas cidades é ainda mais penoso: segundo a pesquisa Linha de Base, da Action Aid, realizada com 306 mulheres moradoras de áreas periféricas de Pernambuco, Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio de Janeiro, 86% delas já sofreram assédio em locais públicos. Os resultados evidenciam a vulnerabilidade que elas vivenciam nos espaços públicos e mostram como o medo da violência de gênero faz com que seja necessário alterar rotinas de trabalho, estudo e lazer — 75% das entrevistadas já desviaram seus trajetos por medo da escuridão e das ruas vazias, 70% já deixou de sair de casa em determinado horário por receio de sofrer algum tipo de assédio. Becos, praças e pontos de ônibus são considerados locais inseguros por mulheres de todas as localidades.

A falta de infraestrutura de acesso aos terminais e estações de transporte público na origem e no destino dos deslocamentos é outro ponto crítico: por causa disso, elas optam por modos mais caros e menos eficientes de deslocamento, se os percebem como mais seguros. Pelas características das viagens das mulheres – muitas vezes com crianças ou idosos, mais bolsas, elas são alvos mais fáceis para o crime.

Outro estudo, este produzido pelo ITDP Brasil com base na escuta da experiência de mulheres da periferia do Recife, o relatório sobre O Acesso de Mulheres e Crianças à Cidade revela uma questão preocupante: a experiência cotidiana de uma vida com medo leva as mulheres a crerem que ele é parte constituinte da vida nas cidades. E a solução para o problema não está em fórmulas fáceis e soluções simplistas.

Reagir a tudo isso e reivindicar a reapropriação dos espaços públicos pode começar com um primeiro passo: desconfiando dos discursos que exploram o medo para justificar a violência. E quem desconfia, checa. Para permitir o uso de dados verificados, facilitar a checagem e a confrontação das informações e dar visibilidade a números realmente confiáveis sobre a vida nas cidades brasileiras, o ITDP Brasil está fazendo um esforço de articular atores da sociedade civil organizada em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife para uma ação conjunta durante as eleições 2018, usando indicadores apurados e disponibilizados na MobiliDADOS. Candidatos, candidatas, militantes, entidades e movimentos que trabalham com direitos urbanos: é hora de rejeitar o discurso do medo e provar que as cidades somos nós.

 

Clarisse Cunha Linke é diretora executiva do ITDP (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento) e mestre pela London School of Economics and Political Science.
Leticia Bortolon é coordenadora de políticas públicas do ITDP e conselheira e representante do Grupo de Trabalho em Gênero da União de Ciclistas do Brasil (UCB).

 

 

____
Os dados compilados pelo ITDP Brasil estão disponíveis para serem utilizados por outras organizações e pela imprensa, e podem ser acessados na plataforma MobiliDADOS. Informações detalhadas para as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife podem ser solicitadas no e-mail brasil@itdp.org.

Tags:, , , , , , , ,

Bitnami