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História e Patrimônio 06.09.2018 — 6:35 am

O dia em que estive por dentro do restauro do Museu do Ipiranga

NILTON FUKUDA/ESTADÃO
Museu Paulista está em obras de restauração com marcas de deterioração na fachada
Nosso espaço aberto para convidados

No ano passado, o Museu do Ipiranga participou da jornada do patrimônio e sorteou visita guiadas para ver o processo de restauro. Eu fui uma das poucas que tiveram sorte de ir, ver, perguntar e saber o que estava acontecendo exatamente. E, resumo da ópera: o processo do restauro já é por si só demorado por conta de toda a investigação necessária somado a burocracia brasileira é o que nos faz duvidar de que o museu estará pronto em 2022. O que eu vi na visita foi:

1) O museu não estava desabando. Na verdade, o que aconteceu foi que pintaram o museu com uma tinta impermeável, sendo que o museu foi anteriormente pintado com cal hidratada, trazida do litoral, e essa mistura continuou a soltar gases lentamente ao longo dos anos. Enfim, o que caiu foi a tinta, por que “sufocou” gases dentro dela, sendo que o prédio precisava “respirar”. Essa foi uma das minhas primeiras perguntas antes mesmo da visita começar, pois fiquei conversando com uma segurança que começou a trabalhar lá pouco antes do museu fechar, e ela contou da vivência que ela tinha com o museu, de quando ela era criança e de como ela achou bizarro ter que trabalhar de capacete e como ela tinha medo de que o museu caísse em cima dela, até explicarem que era o revestimento caindo.

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2) Logo q a visita começou surgiu a pergunta do “porque restaurar?” Já que eles iam fechar o prédio para refazer toda a pintura do prédio, já aproveitaram para fazer o restauro do prédio, visto que nunca havia tido um restauro profundo, e não se tinha conhecimento sobre os processos construtivos e a estrutura do prédio.

3) A estrutura do prédio está perfeita. Quando fomos no primeiro pavimento tinha uma sala que tiraram uma parte do piso pra saber como ele é feito. É uma viga-vagão linda que vence um vão de 6m! A estrutura do prédio é inteira em peroba e está i n t a c t a.

4) No ano passado tinha uma equipe de restauro italiana fazendo as prospecções, inclusive encontramos um deles no local, e uma empresa de engenharia responsável pelo processo de prospecção em si. Confesso que eu estava louca para tirar várias fotos de cada buraco que eles abriram pra saber como o prédio foi construído. Novidade: não pode. Por que a empresa de engenharia brasileira vai realizar o relatório oficial e cada centímetro do prédio em que eles mexeram tem direito autoral deles. Vamos esperar esse relatório para saber como foi!

5) Porque está demorando tanto? Aí é que entra a burocracia. Em 2017 ainda tinha muito acervo no museu. Por que: tudo o que vai sair de lá tem que ser autorizado pelas 3 instâncias de tombamento. Absolutamente tudo. É um papel para cada objeto e que percorrer 3 órgãos diferentes e precisa voltar para o museu. Depois disso tem que contratar transporte autorizado e especializado para fazer a remoção. Uma parte do acervo do museu se encontra em imóveis alugados nas redondezas do mesmo. Inclusive, pode-se ter acesso à biblioteca do museu. É necessário ligar lá e descobrir em que imóvel ela se encontra.

6) O restauro está acontecendo em partes. Então a primeira foi de prospecção e retirada do acervo, depois veio o concurso para o projeto de restauro e depois vem o restauro em si.

7) As pessoas estão trabalhando lá ativamente!! Algumas obras não vão sair do museu e estão sendo restauradas lá mesmo pela própria equipe de restauro do museu. O quadro da independência, aquele enorme, vai ser restaurado lá dentro! Inclusive, tivemos uma pequena explanação sobre como é feito o restauro de obras de artes e nos mostraram estudos que fizeram de alguns quadros de lá e como era possível saber se os quadros já haviam sido restaurados, se o restauro foi da maneira correta e como eles podem vir a restaurar.

Me desculpem o texto ser tão longo, acredito que como eu tive o privilégio de ir, é minha obrigação compartilhar o que eu vi lá com todos que se importam com o museu. E o que eu vi foi uma equipe super empenhada e que está se esforçando muito para reabrir o museu no bicentenário e tentando a todo custo manter o museu na memória da população, se vocês verem a página do museu, verão que eles estão bem ativos e que o museu conta com uma programação ativa.

O que realmente atrapalha muito é a burocracia para tudo e o completo descaso com tudo aquilo que é público. Uma das pessoas na visita perguntou se era possível que a iniciativa privada doasse dinheiro para subsidiar o restauro. A arquiteta responsável nos informou que mais de uma vez tentaram doar o dinheiro necessário para o restauro, só que é praticamente impossível receber o dinheiro da iniciativa privada. E eu acredito nisso, sou estudante de uma instituição pública e essa pauta já foi levantada mais de uma vez e sempre nos disseram que é tão difícil doar coisas para órgãos públicos que as pessoas desistem. Ou seja, não investem em nada que é público e de direito para a população e também não permitem que quem pode, possa investir.

Realmente espero que o museu abra novamente suas portas para o bicentenário e que toda a população possa usufruir daquele espaço. E que nós, futuros arquitetos e arquitetos formados, possamos ter acesso à documentação referente ao restauro ao fim do mesmo.


Carolina Carneiro
 é estudante de Arquitetura do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), antigo CEFET. É curiosa e sempre quer saber algo novo.

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