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História e Patrimônio 03.09.2018 — 8:36 am

Acervos precisam se tornar atraentes ao público e à iniciativa privada

WILTON JUNIOR / ESTADÃO
Incêndio de grandes proporções atinge Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro (RJ), neste domingo (02)
Mariana Barros é cofundadora do Esquina

A tragédia ocorrida na madrugada de hoje no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, evidencia um sintoma que há anos contamina os principais acervo brasileiros, como os do Museu do Ipiranga, em São Paulo, ou o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. Peças que fazem parte da história nacional ou mesmo mundial são relegadas ao limbo, enquanto dezenas de museus sem acervo se multiplicam. O sucesso dos museus tecnológicos escancara a dificuldade dos tradicionais.

O Museu do Amanhã, exemplar mais bem-acabado da nova leva tecnológica sem acervo histórico, foi inaugurado em 2015 ao custo de 215 milhões de reais e já se tornou o mais visitado do país, recebendo mais de um milhão de pessoas por ano. O número representa a soma de público do Museu da Imagem e do Som (SP), Masp e Museu de Arte do Rio, que aparecem em seguida como os mais bem colocados do país. O público é uma métrica muito importante para um museu, além de ser ferramenta estratégica para dar visibilidade e assim garantir sua sobrevivência.

Se a boa notícia é que há muita gente visitando museus no Brasil, a má é que elas não visitam os acervos fundamentais da nossa história. Encontrar uma maneira de apresentar estas relíquias de maneira atraente, promovendo mostras temáticas e programas interativos baseados em tecnologia parece o melhor caminho para buscar público e, consequentemente, recursos através de parcerias com a iniciativa privada. Sem isso, o triste destino do Museu Nacional, que há décadas padecia com a falta de verbas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que o administra e a falta de interesse público permanecerá à nossa espreita.

Museu do Ipiranga e Capivara

O Museu Paulista, nome oficial do Ipiranga, está fechado desde 2013 por problemas no forro que poderiam levar ao desabamento do prédio. Anos atrás, ele teve um plano de reestruturação liderado por professores da Faculdade de Arquitetura e urbanismo da USP com a colaboração de uma ampla equipe técnica. O projeto foi entregue em 2015 à diretoria do museu e arquivado. Assim como o Museu Nacional, o Ipiranga também é administrado por uma universidade, no caso a USP. Sem maiores justificativas, foi realizado um concurso para escolher outra proposta, com vencedores anunciados em março deste ano. Eles terão até março que vem para apresentar o projeto de reforma, cujo estimado para execução é de R$ 100 milhões. Ninguém sabe ao certo de onde virão os recursos.

O pior é que, durante essa novela que já dura cinco anos, foram feitas apenas obras emergenciais de escoramento do teto, além da realocação de parte do acervo. A previsão de reabertura já foi adiada de 2019 para 2022 — e contando. Em 2022 se comemora o Bicentenário da Independência do Brasil.

No Piauí, onde estão algumas das mais importantes pinturas rupestres das Américas, a situação é de calamidade. Dos 270 funcionários necessários, a equipe operava com 50, demitidos em julho por falta de verba para pagar os salários. Para piorar, um incêndio atingiu boa parte da área em outubro do ano passado. A arqueóloga Niède Guidon, diretora da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), obteve apoio da OAB-Piauí e Ministério Público Federal, que entraram com uma ação contra a União na tentativa de conseguir recursos para a manutenção do parque e recontratação dos funcionários.

O local foi declarado patrimônio mundial pela Unesco (Organização das Nações Unidas pela Educação, Ciência e Cultura) e é composto por mais de 1.200 sítios com pinturas  feitas em rochas e interior de cavernas há milhares de anos. É a maior concentração de sítios arqueológicos pré-históricos do continente.

Essas duas tristes histórias, entre dezenas de outras espalhadas pelo país, se somam ao melancólico fim do Museu Nacional. Precisamos trilhar novos caminhos para encontrarmos desfechos mais felizes.


Mariana Barros
é cofundadora do Esquina.net.br

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