*

Tecnologia 28.08.2018 — 6:32 am

Cidades inteligentes: educação, democracia e tecnologia

Vladimir Kudinov / Unsplash
Edifício em Manhattan
Pedro Henrique de Cristo é arquiteto, empreendedor e professor das universidades de URBAM-EAFIT Medellin, Universidade da Cidade do Cabo, PUC-RJ e FGV-RJ. É pesquisador, designer, curador e especialista afiliado da Universidade Harvard e da iniciativa de Massive Open Online Courses, entre Harvard e MIT

As cidades são uma das maiores inovações da humanidade. Um problema entretanto tem sido o programa, ou seja, o desenho funcional dessas cidades. O programa da cidade dividida persiste globalmente. Hoje, de São Paulo a Medelín, da Cidade do Cabo, Cidade do Cabo a Mumbai ou até mesmo de Nova Iorque a Amsterdã, esse programa persiste. Basicamente o desenvolvimento espacial funciona da mesma forma: as pessoas ricas, com mais educação e por consequência mais voz política, moram nas áreas da cidade com melhor infraestrutura pública enquanto que as mais pobres, menos educadas e com menos voz política vivem nas periferias.

Esse contexto dentro dos países democráticos é resultado de um problema de desenho institucional. Todo o desenho e construção da cidade é decidido pela Câmara de Vereadores, instituição que conta com os principais incentivos para corrupção, a discrição e o poder. Ao mesmo tempo que quase ninguém sabe o que os vereadores fazem eles tem um poder imenso para decidir a cidade. Para completar o adensamento desse poder nas mãos de poucas pessoas, em São Paulo, por exemplo, apenas nas mãos de cinquenta e cinco, facilita aos agentes corruptores comprar as maiorias necessárias para fazer o que quiserem com a cidade.

Precisamos de um sistema em que 25.000 votos do Capão Redondo, tenham o mesmo peso da mesma quantidade de votos do Jardim Europa. Isso só será possível por meio da integração da democracia representativa com mecanismos da democracia direta. Uma proposta que criamos no nosso estúdio com financiamento da Escola de Arquitetura da Universidade de Harvard é a Ágora Digital. Um novo equipamento para integração da democracia direta e representativa nos espaços físicos e digital que está sendo desenvolvido pela América Latina.

Outro grande problema das nossas cidades é a histórica e errônea sequencia de desenho desenvolvida globalmente. Na grande maioria das cidades essa sequencia partiu da escala da arquitetura para o desenho urbano e em raríssimos casos tendo finalmente o desenho de territórios quando tem de ser exatamente o contrário especialmente com os efeitos da mudança climática. Junto a essa mudança sequencial outro fator técnico decisivo é a aplicação da tecnologia no desenvolvimento e gestão das cidades.

Ao mesmo tempo que o uso de novas tecnologias de software e hardware permitem melhorar o processo de pesquisa, desenho e desenvolvimento urbano exponencialmente elas podem acabar sendo armadilhas quando mal utilizadas. As empresas de tecnologia tem vendido a ideia de que a cidade do futuro tem de ser completamente automatizada, uma verdadeira falácia. Uma coisa é decidir o tempo dos faróis urbanos, outra como será a distribuição do zoneamento da cidade levando em conta fatores sociais, culturais e históricos.

O que faz qualquer cidade inteligente não é a quantidade de tecnologia utilizada e sim as pessoas que nela vivem. Por isso é que as cidades mais inovadoras e melhores para se viver são aquelas com alta qualidade de serviços sociais, forte participação democrática de suas populações e um desenvolvimento espacial equilibrado entre suas populações e ambiente natural.


Pedro Henrique de Cristo
é arquiteto interdisciplinar, professor e empreendedor dedicado à integração entre a Arquitetura, Políticas Públicas e Tecnologia. É fundador do estúdio +D e presidente do Movimento @Brasil21 de Inovação Política. Atua(ou) como professor nas universidades de URBAM-EAFIT Medellin, Universidade da Cidade do Cabo, PUC-RJ e FGV-RJ. É pesquisador, designer, curador e especialista afiliado da Universidade de Harvard e da iniciativa de Massive Open Online Courses entre esta universidade e o MIT. É bolsista Lemann, Estudar, RAPS e das bolsas Tinker, de pesquisa na América Latina, e do Ash Center for Innovation in Democracy, as duas de Harvard. É natural de Campina Grande na Paraíba e atualmente vive em São Paulo.

Tags:, , , , , , ,

Bitnami