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Arte e cultura 24.08.2018 — 7:22 am

A representação da memória nas cidades

Raphael Koh / Unsplash
Céu noturno
Ana Marta Ditolvo é arquiteta e urbanista pela FAAP, mestre em Artes Visuais pela Unicamp e docente pela FAAP. É diretora de Patrimônio da Oscip Museu a Céu Aberto e sócia e coordenadora de projetos na Ambiência Arquitetura e Restauro

Sobre os meios de conter a passagem do tempo: Quais são as formas de preservação que atestam e asseguram a sobrevivência de nossa memória?

De certo, fomos feitos para esquecer, mas os sentimentos mais nobres vêm sempre despertados, mesmo que de forma seletiva, pelos afetos que criamos e pelas lembranças que temos; afetos vivenciados diariamente e lembranças apegadas as tradições e referenciais de memória que são substanciais ao entendimento de quem somos.
As relações de identidade, as sensações de pertencimento, o reconhecimento de nós mesmos como parte de um lugar são contados através da história individual ou coletiva e pautados pela tênue linha entre a realidade e a nossa capacidade de imaginar.

As memórias, que também podem ser individuais ou coletivas, são pontos de conexão entre o homem e o meio, e a materialidade surge então intensificando o elo entre o homem e o tempo, e sua representatividade como um subterfúgio para o esquecimento quando ainda é memória.

Os meios de representatividade da memória assegurados pelas Belas Artes, como por exemplo a arquitetura e a fotografia, entre outras; serão sempre elementos fixadores desta passagem do tempo e, sem dúvida, com muito a dizer sobre as sociedades do passado que refletem significativamente na contemporaneidade.

A arquitetura enquanto meio de construção de artefatos que compõe a paisagem e portanto, elemento dinâmico desta materialidade, assume um importante papel na representatividade do tempo, descrita muitas vezes por estudiosos da preservação em seus documentos, como matéria física primordial , inclusive ressaltando a importância de preservamos sua autenticidade em busca da perpetuação da memória como meio de salvaguardar os valores intrínsecos a estes bens e como garantia de que com isso não deixaremos de ser quem somos nem de pertencermos a um determinado lugar, por mais transitório que seja.
Até mesmo as ruinas aparecem como um caminho que, de certa forma, assegura a leitura do passado e permite a continuidade da história, mesmo que fragmentada e para contemplação.

A fotografia como imagem fixa de um determinado tempo, de um passado próximo ou distante, assume um papel importante na exaltação da memória.

Enquanto a arquitetura é realidade vivenciada e se transforma, a fotografia é figura estática, mas não menos significativa para a continuidade da vida de determinados aspectos relevantes a constituição de uma sociedade que preza pelas suas tradições, visto que representa a realidade do que foi um dia e que, portanto, nos desperta a memória. Tanto é verdade que vem sendo utilizada como ferramenta para registro das ambiências na configuração das paisagens naturais, das cidades e modos de vida, das relações familiares e das relações das pessoas com as comunidades.

Portanto entendo que dentre as possíveis formas de preservação, a arquitetura e a fotografia ainda são e continuarão sendo fundamentais no processo de vivência e documentação das cidades de outros e do nosso tempo e das pessoas que ora as habitam.

Os processos metodológicos para salvaguarda destes bens arquitetônicos e registros iconográficos de interesse que vão desde o reconhecimento das paisagens e seus artefatos, inventário, seleção e estabelecimento de juízo crítico até a declaração de valor, proteção e manutenção de acervos tem garantido a constituição dos nossos referencias de memória.

Como será este processo de identificação, registro e manutenção do meio para garantia da presença dos nossos antepassados nas relações humanas do futuro diante por exemplo da arquitetura reversível – temporária e transitória – e da fotografia digital – de disparos em larga escala?

Quais serão os parâmetros para a constituição do nosso acervo e como ele será utilizado? Quanto esta certa efemeridade do mundo contemporâneo pode comprometer e banalizar os processos que garantem a preservação? São respostas que gostaria de ter.
De qualquer modo, importante é não perdermos de vista a noção de que as sociedades se mantem, se constroem e reconstroem através da constituição de seus referenciais e que estes não podem ser esquecidos, sendo assim, sempre memória.

 

Ana Marta Ditolvo é arquiteta e urbanista pela FAAP, mestre em Artes Visuais pela Unicamp e docente pela FAAP. É diretora de Patrimônio da Oscip Museu a Céu Aberto e sócia e coordenadora de projetos na Ambiência Arquitetura e Restauro

 

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