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Infraestrutura 20.08.2018 — 6:43 am

Impasse entre tecnologia e infraestrutura é crítico para o digital

Tony Stoddard/ Unsplash
Torre de sinal via satélite
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O intenso crescimento do uso de dispositivos eletrônicos em todas as esferas da vida social e o processo de inclusão de grandes camadas da população global às plataformas digitais corporativas e governamentais demandam forte expansão das infraestruturas de conectividade digital nas aglomerações urbanas e uma nova arquitetura no pensamento social. No entanto, a provisão de infraestrutura é um processo lento e o desenho dessa expansão é dominado por uma perspectiva tecnocêntrica. Dotar o ambiente urbano de uma estrutura de conectividade densamente capilarizada é um desafio às redes de tecnologia da informação e comunicação (TIC) em metrópoles como São Paulo.

O impasse entre provedores de serviços online e os provedores de infraestrutura de TIC é crítico para o futuro da revolução digital e o espaço urbano é o ambiente onde esse conflito está sendo travado. No entanto, o debate atual carece de perspectivas históricas que permitam um maior entendimento das relações entre espaço, sociedade e tecnologia.

 

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Ainda que tendamos a entender o fenômeno digital como uma novidade absoluta, a gênese desse processo é histórica e o processo de formação destas infraestruturas fornece uma visão abrangente do panorama atual das políticas da tecnologia, conforme uma infinidade de mapas, imagens de época – e uma extensa bibliografia – nos demonstra.

Os mapas da conectividade digital global revelam questões latentes. A conclusão mais imediata é que a atual arquitetura global de TIC, construída nos últimos 150 anos, ainda deixa diversas regiões do mundo sem cobertura de fibra ótica e internet fixa em banda larga. É o caso de vários países africanos e muitas periferias brasileiras. Outro aspecto notável é que a atual distribuição de infraestrutura de TIC obedece a padrões históricos de desigualdades socioespaciais: regiões de maior renda são melhor atendidas por provedores e operadoras.
A grande densidade de cabos submarinos atendendo Estados Unidos, Europa e Sudeste Asiático denota não apenas o protagonismo econômico destes locais, como também a inadequação, de um ponto de vista político, de se classificar a internet como um sistema descentralizado: os mapas de conectividade indicam aquilo que o geógrafo Boris Beaude, em seu livro “Internet: changer l’espace, changer la société”, chamou de “hiperdistribuição de estruturas de poder”. De fato, alguns países e conglomerados concentram “poder infraestrutural”, que lhes permite capilarizar suas operações político-econômicas por vastas distâncias geográficas.

Essa assimetria, visível nos mapas, se mantém relativamente inalterada desde a implantação das primeiras redes telegráficas globais, na virada do século XIX pro XX. Partindo deles não é absurdo afirmar que a internet reforça e acentua desigualdades sociais. Hoje a questão da ampliação do acesso à infraestrutura digital é uma questão existencial – na medida em que são infraestruturas de suporte à vida material -, bem como é crucial a questão da nova política que hoje leva o nome de “tecnologia”, e que funde-se às estruturas urbanas em ritmo intenso.

Na atual etapa da economia, para uma reconfiguração global das cadeias de logística industrial e cultural – uma rede hiper-distribuída de produtores, fornecedores, consumidores e distribuidores – é condição sine qua non a construção de um ambiente computacional vasto e homogêneo. Nesse contexto, as cidades são plataformas digitais-urbanas que permitem a conversão do produto informacional das suas dinâmicas e interações sociais em valor financeiro.
O Big Data – as grandes coleções de dados manejáveis em tempo real que subsidiam todo tipo de operação em larga escala – depende fundamentalmente da disponibilidade e da ampliação da rede de telecomunicações. Nesse sentido, o protagonismo da agenda urbana para o setor de tecnologia está alinhado com a agenda global de sustentabilidade da ONU e da indústria 4.0 – movimento de reorganização produtiva altamente baseada em tecnologia da informação. Por isso a conectividade plena é o pano de fundo das chamadas “cidades inteligentes” – que por sua vez é o conceito operativo pelo qual se coordena uma ampla revisão das formas de gestão urbana, onde a produção de dados está inserida em todas as camadas da infraestrutura urbana.

No entanto, a inércia do espaço urbano é uma obstrução à altíssima velocidade dos ciclos de inovação tecnológica. Dotar o ambiente urbano de uma estrutura de conectividade densamente capilarizada desafia a atual condição das redes de TIC em metrópoles como São Paulo.

Considerando-se o cenário emergente da tecnologia 5G — nova tecnologia de transmissão de dados wireless que exigirá uma rede extremamente densa de pequenas antenas plugadas em edifícios, semáforos, iluminação pública, bancas de jornal, pontos de ônibus – algumas perguntas são inevitáveis: a projeção de aumento da demanda por conectividade está considerando questões ambientais tais como as próprias características históricas que desenharam a morfologia e os usos do espaço urbano?

Com que velocidade se dará a expansão da infraestrutura e como serão definidas as áreas prioritárias? Considerando-se a fragmentação (e muitas vezes inexistência) dos dados e mapeamento públicos das redes de cabos subterrâneos e da fiação aérea, considerando-se a sobrecarga dos postes de energia elétrica e os conflitos entre operadoras e concessionárias de energia e finalmente considerando-se a dificuldade em se aprovar novas obras, em que medida o sonho da “cidade inteligente” de fato considera a realidade concreta da urbanização caótica e da administração burocrática da cidade como um fator quiçá impeditivo para esta agenda? É importante frisar que São Paulo, postulante a “cidade inteligente”, ficou na nonagésima nona posição no ranking “Cidade Amiga da Internet”, que mede justamente o quão “smart” é a infraestrutura de telecomunicações dos municípios brasileiros.

Hoje no Brasil há uma intensa movimentação política para a criação de parâmetros para investimentos públicos e privados em sistemas de sensoriamento e monitoramento do espaço urbano, promovendo fóruns, encontros, congressos e colóquios. “Cidades Inteligentes” é um dos focos prioritários do Plano Nacional de Internet das Coisas divulgado pelo BNDES no final de 2017. Mas do ponto de vista do planejamento urbano estatal brasileiro, pode-se afirmar que historicamente o campo do planejamento das telecomunicações ainda não está integrado aos instrumentos públicos de produção e organização do espaço urbano.
Em São Paulo, a implantação de redes de infraestruturas de telecomunicações é escassamente mencionada no último Plano Diretor Estratégico, exigência do Estatuto das Cidades – lei que regula políticas urbanas no Brasil em nível federal. Também o Plano Nacional de Conectividade do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e a Cartilha das Cidades produzida pelo estudo do BNDES sobre Internet das Coisas não contam com a participação de urbanistas. Nestas iniciativas não há integração com o Ministério das Cidades e nem com instâncias municipais de regulação dos usos do espaço urbano.
A questão é que a regulamentação de políticas de telecomunicação se dá em nível federal, na esfera do McTIC e da Anatel, e as prefeituras tem poucos instrumentos para efetivamente desenhar as formas como estas operações de irão impactar seus municípios. Apesar disso, a interação entre provedoras e o setor imobiliário é estreita e podemos verificar como a distribuição de novas redes de dados determinou o sucesso de locais como Alphaville (Barueri) e a região da Berrini e Vila Olímpia – regiões com alta densidade de empresas de tecnologia e finanças.

Essa condição de dissociação entre política de telecom, política urbana e política industrial é oriunda da era pré-conectividade móvel. Hoje ela é a melhor expressão da desarticulação entre as expectativas de expansão da economia digital e as implicações e consequências espaciais dessa expansão nas cidades brasileiras. Vamos usar o caso dos serviços tipo Uber, e 99 para ilustrar essa cisão entre “abertura para a inovação” e “desconsideração pelos efeitos amplos da inovação no espaço urbano”.

Embora a chegada destas empresas inaugure uma nova mentalidade em relação à mobilidade, será que de fato elas promovem uma melhoria no trânsito? Será que geram uma redução no número de automóveis em circulação nas grandes cidades? Parece bastante evidente que para que cidadãos deixem de utilizar seus veículos particulares, outros cidadãos obterão um automóvel para atendê-los. Como se dá esse equilíbrio? Ademais, pela lógica de densidade, oferta de emprego e renda per capita e pela área de atuação de algumas destas empresas, podemos inferir que a maior parte das corridas em São Paulo é realizada no centro expandido, fator que induz maior deslocamento de motoristas para esta região, congestionada já há várias décadas. Finalmente, há também o “efeito Uber”: o aumento da vacância de áreas de estacionamento nas cidades atendidas e as caudas de congestionamento no embarque e desembarque em pólos de atração como shoppings centers.

Onde estão os dados públicos que aferem a performance destes serviços e seus impactos amplos sobre o meio-ambiente urbano – impactos sobre o emprego, sobre o acesso à infraestrutura digital, sobre a transformação e regulamentação dos novos usos do espaço viário? Apenas taxar o serviço localmente basta? Ou precisamos de uma arquitetura conceitual mais ampla, que abranja todo o sistema urbano? Claro, são novos serviços, que ainda estão em fase experimental. Mas é preciso ter claro que estes serviços — online to offline — são uma consequência direta da disponibilidade e densidade de infraestrutura de telecomunicações, que permitem que se opere grandes sistemas urbanos por meio de aplicativos de celular — que nada mais é que um componente móvel desta vasta infraestrutura– com efeitos profundos sobre o uso e o valor do espaço urbano.

Tal descompasso pode ser explicado de várias formas. Mas entendemos que deve-se em grande parte à inexistência de estudos sistemáticos, no Brasil, sobre as interinfluências entre desenvolvimento urbano-social e as novas tecnologias da informação e comunicação – principalmente sobre fenômenos comportamentais decorrentes da expansão da comunicação móvel. Ainda que os maiores e mais evidentes impactos das TICs no meio-ambiente urbano sejam sobre as formas de uso do tempo, efeitos re-ordenadores não-desprezíveis – e pelo contrário, altamente relevantes – sobre a materialidade da metrópole demandam maior atenção dos planejadores e demais produtores do espaço urbano.

No atual contexto, é preciso urgentemente congregar atores públicos e privados, incluindo antropólogos, sociólogos, urbanistas, designers, educadores, ambientalistas, em torno da criação de uma agenda municipal urbana-digital integrada, transversal e não-tecnocêntrica. Estruturada como uma plataforma dinâmica, ela deve garantir o suporte à gestão pública de sistemas urbanos e sociais complexos. Mas deve ir além disso.
É preciso investigar permanentemente as inter-relações e tensões entre espaço, sociedade e tecnologias da informação e comunicação, para que exista, por parte dos formuladores de políticas, uma maior compreensão das influências da tecnologia sobre a organização do espaço urbano e sobre como as geografias e demografias influenciam a distribuição e o desenvolvimento das TICs.

Finalmente, estudos sobre os impactos sócioambientais da densificação das mídias digitais urbanas – ou seja, sobre a simbiose entre as transformações comportamentais e as transformações espaço-temporais produzida pela disseminação de sistemas digitais em tempo real na vida social metropolitana – podem revelar variáveis novas e subsidiar o desenho de políticas inovadoras de reprogramação das cidades brasileiras. Hoje está evidente que a questão da tecnologia ultrapassa o setor de tecnologia: é um debate sobre os rumos da sociedade, e por ele passa o futuro da vida urbana.

 


Lucas Girard
é arquiteto urbanista, mestre pela FAU-USP, coordenador do grupo de estudos Cenários Urbanos Futuros e pesquisador do Centro de Estudos Sociedade e Tecnologia (CEST POLI-USP). Este artigo deriva de boletim publicado pelo Centro de Estudos Sociedade e Tecnologia (CEST)  da Escola Politécnica da USP, em julho de 2017.

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