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Mercado 03.08.2018 — 9:50 am

A importância de premiar o que o cidadão enxerga na cidade

André Czitrom é engenheiro civil pós-graduado em História da Arte e sócio colaborador da MagikJC Incorporadora

 

No último dia 12 de junho foi realizado o 25º Top Imobiliário, premiação que celebra as empresas atuantes no mercado imobiliário da região Metropolitana de São Paulo que mais venderam e construíram no ano anterior. No entanto, o que mais chamou atenção no resultado desta edição – e em todos os outros prêmios do setor, foi a falta de alguns temas e personagens que contribuem para a nossa cidade tanto quanto, ou mais, que os recordistas em vendas e metro quadrado construído.

Ao mesmo tempo que devemos agradecer aos importantes veículos de mídia, como esses que organizam, divulgam e patrocinam os prêmios, devemos também, é claro, parabenizar essas empresas que puxaram a produção imobiliária que, depois de 4 anos de retração, encontrou a retomada a partir de 2017.

As maiores empresas da nossa cidade são companhias de primeira linha: seus fundadores, na maioria dos casos, ainda são os principais executivos, possuem estrutura financeira e de back-office alinhada com os mais altos padrões de governança corporativa e atuam, há anos, em um mercado competitivo e complexo. E, mesmo assim, já entregaram milhões de m² com qualidade e prazo. Além disso são as que geram escala, puxando aumento de emprego, renda, e contribuindo com nossa economia e desenvolvimento do país.

Mas, por outro lado, atualmente, contribuir para uma cidade não se trata apenas de volume construído ou vendido. Inovação, relacionamento com vizinhança, arquitetura e arquitetos, urbanismo, equipamentos públicos e escolas, tecnologia, relacionamento com o cliente, humanização dos processos, gestão social, relacionamento com operários de obra, negócios disruptivos, soluções para habitação econômica ou soluções para retomada da região central da cidade são temas que, na minha opinião, não poderiam faltar quando se pensa em cidade e premiação sobre o tema. No presente, pensar a cidade por meio dos negócios imobiliários é pensa-la em conjunto com todos os atores que contribuem, de alguma forma, para que a cidade melhore e não, apenas, receba mais empreendimentos.

O famoso “casamento entre o mercado imobiliário e os arquitetos” [1] que ocorreu entre o setor e a arquitetura/arquitetos nas décadas de 1950 e 1960 é apenas um exemplo disso. Naquela época foram projetados e construídos os edifícios mais importantes da cidade e que contemplavam não apenas a arquitetura ou demanda de um produto, mas um programa de habitação em conjunto com o uso misto comercial, hoteleiro, varejo e entretenimento e foi desenhado pelos mais criativos arquitetos que moravam em São Paulo (nascidos ou imigrantes). A maioria desses prédios, hoje, são publicados e comentados nos mais diversos meios de comunicação no Brasil e no resto do mundo.

Um casamento apenas entre os Arquitetos e Incorporadores/ Construtores nessa São Paulo da década de 2010, contudo, ainda não seria suficiente. O mundo é outro, a cidade é outra e a sociedade se comporta de forma diferente. Além disso, alguns problemas graves e enraizados em nossa cidade, ligados à habitação, aumentaram.

O conceito de “melhor” para uma cidade como São Paulo deveria ser revisto. E é por esse motivo que devíamos lembrar as empresas que trabalham e promovem essa nova forma de se construir, comercializar e pensar a habitação. Talvez ainda não tenham sido lembradas em premiações nobres por serem empresas pequenas, por estarem tímidas testando uma nova forma de atuar dentro de um mercado muito tradicional ou ainda por não conseguirem fazer um barulho tão grande quanto o que os milhões de m² fazem nos anúncios de capa de jornal. Essas empresas já existem, são ligadas ao mercado imobiliário e estão fazendo um bem danado para a cidade.

Algumas são, inclusive, ligadas aos mesmos grandes vencedores do prêmio do dia 12 de junho, como as 50 start-ups incubadas pela Mithub uma parceria Cyrela/Zap/Athie Wornath, e que são lembradas apenas nos eventos de tecnologia ou pequenas palestras específicas sobre o nicho. No campo de Inovação/Habitação temos que promover o trabalho excepcional da Vitacon em alinhar tecnologia a um possível e desejado jeito novo de se viver em uma cidade cosmopolita como São Paulo.

Também não vimos menção aos arquitetos responsáveis pela obra ou reforma de alguns dos importantes marcos construtivos, arquitetônicos, culturais e sociais, como o Sesc 24 de Maio e o Sesc Paulista. Deveríamos premiar também as empresas de vendas/locação que vão além de simples intermediação, contando a história da cidade ou da arquitetura como a Refúgios Urbanos e a Axpe ou ainda, na mesma linha, os paradigmas quebrados pela Quinto Andar, startup que desburocratiza a transação imobiliária e a Alpop; empresa focada em locação econômica. Esses são alguns dos cases de uma nova forma disruptiva de atuar no mercado, sem falar nas dezenas de empresas com mesmo foco espalhadas pelo resto do país.

No campo de projetos urbanísticos não há menção (em todos esses últimos anos de premiação) ao projeto da construtora Porte — o “Eixo Platina”, já em construção e que prevê um novo centro de uso misto para a região do Tatuapé, na zona Leste de São Paulo, e que promete se tornar uma Berrini corrigida. Esquecidos pelas premiações também são os projetos que já redesenharam a cidade, como o Santos Augusta da REUD ou as aulas de Arquitetura topicalizadas em prédios que a Idea Zarvos vem imprimindo há anos na cidade.

Esquece-se ainda de escritórios de arquitetura como o Aleph Zero e Rosembaum que trabalham em São Paulo e são os responsáveis pelo projeto Moradas Infantis do Bradesco, empreendimento residencial e social premiado pelo RIBA AWARD (Instituto Real de Arquitetos Britânicos) – um dos mais respeitados do mundo. Jovens empresas como a Huma e a Moby estão construindo empreendimentos que trazem consigo arquitetura de primeira linha e prédios que conversam com a rua, o bairro e a cidade. Ambas também já foram premiadas e mencionadas aqui no Brasil e no exterior; mas nunca em uma celebração sobre o nosso mercado.

E não para por aqui: as empresas que estão desenvolvendo co-living , student living ou sênior living em região de alto adensamento, outras que estão repensando a administração de condomínio de acordo com os novos costumes da sociedade, as incorporadoras que têm atuado no centro de São Paulo construindo, retrofitando, as que tem realizado empreendimentos econômicos no centro das cidades dentro do MCMV (Minha Casa Minha Vida – principal programa federal disponível para o acesso à habitação econômica).

Lembro ainda o papel fundamental, e necessário, das Gestoras Sociais de empreendimentos econômicos (que ainda são poucas, infelizmente), portais online de venda/locação/comparação de preços, as empresas de realidade virtual e as empresas envolvidas nos PIU [2] ou PPP [3] como é o caso da Urbem e dos escritórios de arquitetura MMBB e Base Urbana, dentre tantos outros. Há ainda aqueles que organizam debates e discussões sobre tudo isso e lotam as plateias dos teatros, livrarias e centros de exposição.

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Intrigado, liguei no dia seguinte ao prêmio para amigos do setor e pessoas interessadas no tema. Perguntei a eles: “Qual foi o ganhador do Top Imobiliário [4] desse ano ou do último Master Imobiliário na categoria construção ou venda? ” Nenhum soube responder. Tampouco se mostraram interessados. Mas quase todos me lembraram que o Santos Augusta, mais uma preciosidade do arquiteto Isay Weinfeld é incrível e que eu não deveria deixar de ir no Sesc Paulista com meu filho de 1 ano de idade.

Não acho que isso mostre uma falha das premiações, mas me parece um reflexo de que o que está sendo premiado não seja aquilo que o cidadão enxerga na cidade, usufrui ou ainda tem interesse de reconhecer como o “melhor” para a cidade.

Parâmetros quantitativos são importantes. Mas, para uma cidade como São Paulo, em 2018, entendo que o parâmetro qualitativo atrairia mais a atenção e seria devidamente valorizado pela sociedade como um todo. Isso não quer dizer que quem faz mais não seja bom para cidade – até por que muitos dos vencedores dos prêmios contribuem demais para a Humanização de nossa cidade. A questão está no fato de que mesmo elas só foram premiadas pela representatividade de volume e não pela qualidade que geram para cidade ou seus stakeholders.

Não podemos deixar de olhar para a cidade e reconhecer aquilo que ainda parece inexpressivo em metros quadrados ou volume de capital; mas que são enormes geradores de Impacto Positivo. E com isso incentivar que todos nós repensemos a força que a produção imobiliária possui na construção de uma cidade melhor para se viver. Os organizadores dos prêmios e a sociedade civil são fundamentais neste processo.

 

André Czitrom é formado em Engenharia Civil pelo Mackenzie e pós-graduado em História da Arte pela Faap. Desde os 16 anos trabalha no setor de Construção Civil, iniciando a trajetória como auxiliar administrativo na Gafisa. Fundou em 2008 a Sanay Desenvolvimento Imobiliário e, em 2016, tornou-se sócio colaborador da MagikJC Incorporadora, um empresa com 45 anos de história e que, desde 2009 está focada em empreendimentos do Minha Casa Minha Vida. É fundador do acervo CSC, que incentiva a produção de jovens artistas plásticos brasileiros.

 

[1] “São Paulo nas Alturas”, de Raul Juste Lores (ed. Três Estrelas)

[2] PIU Projeto de Intervenção Urbana. PIU Centro — no Centro da cidade de SP – atualmente está sob consulta pública, uma nova tentativa para revitalizar, adensar e melhorar o Centro, agora de Bruno Covas, aproveitando a ferramenta legal criada por Haddad. Há outros PIUs, como por exemplo o da Vila Leopoldina cuja proposta, recentemente, foi alvo de disputas entre moradores e interessados da região.

[3] PPP – Parceria Público Privada da Habitação – formato estadual de promover empreendimentos econômicos ligados ao MCMV- caso mais recente foi na LUZ.

[4] O Master Imobiliário é outro prêmio muito importante, criado em 1994 pela Fiabici e Secovi – e reconhecido mundialmente

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