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Arte e cultura 01.08.2018 — 7:38 am

Situando Jane Jacobs

Jane Jacobs (1916 - 2006) na Washington Square Park, em Nova York, em 1963. (Foto Fred W. McDarrah/Getty Images)
Renato Cymbalista é arquiteto e urbanista, professor da FAU-USP e coordenador do grupo de pesquisa Lugares de Memória e Consciência (USP/CNPq)

Se tivéssemos que eleger um único livro que representasse a história recente do urbanismo no Ocidente, possivelmente a escolha recairia sobre Morte e Vida das Grandes Cidades, publicado em 1961. O livro modificou as regras do jogo das cidades em todo o mundo.
Jane Jacobs não foi a única nem a primeira voz crítica ao urbanismo modernista arrasa-quarteirão que prevaleceu nas décadas de 1940 e 1950, mas o seu livro atingiu em cheio a opinião pública e apoiou a construção de um senso comum crítico dos grandes projetos de “redevelopment” e valorizador dos tecidos urbanos historicamente constituídos.

A leitura de “Morte e Vida…” nos permite, na verdade, problematizar a totalidade do urbanismo do século XX. A obra faz isso na chave retrospectiva – pelas radicais críticas que a autora faz simultaneamente ao modelo modernista corbusiano baseado em “torres no parque”, à cidade jardim descentralizadora de Ebenezer Howard e às propostas de planejamento regional de Lewis Mumford;
e também na chave prospectiva, pois é um dos marcos de origem da sensibilidade atual que valoriza os tecidos históricos, a sociabilidade das ruas e calçadas, os bairros de usos mistos, o combate à
hegemonia dos automóveis.

Fui estudante de arquitetura e urbanismo na USP entre o final da década de 1980 e meados da década seguinte. Naquela época, Jane Jacobs quase não aparecia no currículo ou nas discussões em
sala de aula. Não me lembro de nenhum colega comentando ter lido o seu famoso livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”, que já havia sido publicado havia três décadas e era considerado um clássico
no mundo anglo-saxão.

Quando retornei à FAU-USP como professor, em 2011, Jane Jacobs estava em todos os lugares. Aparecia nas ementas de disciplinas, nas discussões em sala de aula, nas salas dos professores, no
bar. Era evocada em geral de forma positiva, na defesa de uma cidade compacta, vibrante, caminhável. Menos vezes seu nome aparecia com conotações negativas, associada a denúncias de gentrificação, de estetização de áreas centrais e captura do patrimônio histórico pelo capitalismo. Mas as referências paravam por aí. Jane Jacobs era sinônimo de Morte e Vida das Grandes Cidades, e mesmo o livro era reduzido às poucas ideias acima.

Entendo porque isso acontece: para nos comunicarmos sem desgastar uns aos outros, precisamos de campos de consenso, onde os termos não precisam ser explicados ou problematizados o tempo todo.
Jane Jacobs havia se tornando um desses termos que era moeda franca entre os entendedores do urbano, descrevendo mais ou menos tudo o que achamos bacana em uma cidade – assim como as desigualdades de acesso a ela. Não vejo problemas em reduzir um autor a esse ponto, ocorre o tempo todo. É também uma das formas de des-hermetizar campos de expertise, permitindo diálogos com
não-especialistas e com outros campos de conhecimento.

A disciplina que ministrei com mais frequência chamava-se “História do Urbanismo Contemporâneo”, e versava sobre a construção do campo de conhecimento do urbanismo desde o início do século XX. Começaram a aparecer cobranças dos alunos, “todos falam dela, mas ninguém fala dela de verdade”. Assumi então a responsabilidade de dar uma resposta a esse chamado, mas fiz isso compartilhando responsabilidades com os estudantes. Este material resulta do processo, levado adiante entre 2016 e 2018.

Em 2016 foi feito um trabalho bastante circunscrito, de leitura e sistematização da obra principal de Jane Jacobs, que corresponde à parte 3 deste livro. É um trabalho singelo mas é bastante instrumental, já que poucos leram Morte e Vida das Grandes Cidades em sua totalidade. Em sua simplicidade, o trabalho abriu uma série de portas. Foi disponibilizado no site do Laboratório para Outros Urbanismos da FAU-USP sob o título “Lendo Jane Jacobs”. Foi publicado como parte de um dossiê na revista Políticas Públicas e Cidades. Motivou também um convite da Editora Anna Blume para o aprofundamento do trabalho e sua publicação em formato de livro.

Em 2017, quando o curso foi ministrado mais uma vez, ele estruturou-se parcialmente para dar resposta ao desafio de produzir um livro sobre Jane Jacobs, algo que ainda não havia sido feito em
português. Assim foram produzidas as partes 1 e 2 deste livro. Cada capítulo resulta de inquietações e perguntas específicas dos participantes da disciplina, que foram encaminhadas de formas
diferentes.

Frequentemente tratamos Jane Jacobs e Morte e vida das grandes cidades como sinônimos intercambiáveis. Fazendo isso estamos tomando a parte pelo todo, e cometendo alguns equívocos.
Retrospectivamente, podemos tratar o livro como o auge da trajetória da autora, mas Jane Jacobs foi e fez muito mais do que isto.

A primeira parte do livro traz os diversos aspectos de sua trajetória para além do livro. Os textos seguem de uma forma geral a trajetória de vida da autora e seu contexto, e constroem-se a partir de problemáticas específicas de interesse de seus autores. Não constituem capítulos de uma biografia, e por essa razão não são estritamente cronológicos.

O capítulo 1 traz a carreira de um quarto de século de Jane como jornalista, escrevendo como freelance para a Vogue, como contratada para Iron Age e Architectural Forum, como convidada para
Fortune. O capítulo 2 traz um ponto de inflexão na trajetória de Jane, a participação na Conferência de Desenho Urbano de Harvard em 1956. No encontro, Jane fez uma rejeição contundente das
estratégias de renovação urbana baseadas nas superquadras e nos blocos modernistas isolados da rua. A fala hipnotizou a plateia e alçou-a ao primeiro time dos pensadores sobre as cidades.

O capítulo 3 mostra que a crítica que Jane Jacobs fazia aos projetos urbanos e à paisagem urbana do pós-guerra era também feita por outros profissionais e intelectuais, algo que foi pouco iluminado
por ela em morte e vida das grandes cidades. O capítulo 4 trata das disputas que Jane travou com seu grande inimigo público, o poderoso Robert Moses, responsável pelos grandes projetos urbanos
de Nova Iorque por décadas. Jane Jacobs – a ativista, muito mais do que a autora ou a jornalista – venceu essas batalhas, e contribuiu em muito para denegrir a imagem de Moses. O texto mostra
também a recente recuperação historiográfica de Moses, que problematiza a ideia do destruidor de cidades que prevaleceu por muitos anos.

O capítulo 5 enfrentou o desafio de recuperar as interlocuções realizadas por Jane para a construção de Morte e vida a partir da lista de pessoas às quais a autora agradece, e que nem sempre são devidamente creditadas no decorrer do texto. O capítulo 6 traz o viés de gênero no olhar de Jane para as cidades, mostrando que a crítica ao fazer autoritário – e masculino – de cidades desenvolveu-se em paralelo ao movimento feminista norte-americano da década de 1960.

O capítulo 7 traz as disputas intelectuais entre Jane Jacobs e Lewis Mumford, o grande nome dos estudos urbanos na época do lançamento de Morte e vida. Mumford foi admirador e apoiador de Jane, mas sua abordagem regionalista recebeu severas críticas no livro. Mumford escreveu uma das mais impiedosas resenhas a Morte e vida, e os dois nunca mais foram próximos. O capítulo 8 trata da obra seguinte de Jane, The economy of cities, seu segundo livro mais importante, mas que nunca foi traduzido para o português.

A segunda parte do livro trata da recepção e circulação de ideias de Jane Jacobs no Brasil, assunto que ainda não foi devidamente percorrido pela literatura. O capítulo 8 traz a progressiva chegada da
autora à imprensa, à academia e às bibliotecas universitárias. O capítulo 9 é um ensaio que mostra a proximidade entre as ideias de Jane e alguns dos dispositivos de planejamento existentes no mais
recente plano diretor de São Paulo. O capítulo 10 traz um conjunto de entrevista com urbanistas, professores e o editor de Morte e Vida no Brasil.

A terceira parte do livro traz o exercício acima citado, que originou todo o trabalho, de sistematização de Morte e vida, tantas vezes citado mas nem sempre lido na íntegra. Os capítulos deste livro têm o mérito de irem além da superfície, trazem as ideias e a trajetória de
uma pensadora sobre cidades que vai muito além de Morte e Vida das Grandes Cidades. É um material que ajuda a compreender Jane Jacobs como fruto de seu próprio tempo, cujas ideias foram
se desenvolvendo no decorrer das décadas, capaz de produzir sínteses geniais e também de cometer algumas injustiças. Sobretudo uma mulher inquieta com a realidade que se apresentava nas grandes
cidades americanas do pós-guerra, e determinada a interferir no debate público sobre seu futuro.

O livro tem também limitações. Não tivemos acesso ao material primário essencial sobre Jane Jacobs, a sua própria coleção documental, disponível no Boston College. O trabalho de pesquisa foi
feito nas obras publicadas, com fontes secundárias e com fontes disponíveis na internet. Foi produzido a partir de inquietações específicas dos autores dos textos, e não de um plano global pré-
determinado. Apresenta, assim, algumas inevitáveis lacunas. A principal delas é não tratar dos livros que Jane produziu a partir da década de 1970. Como não se trata de uma biografia compreensiva,
basta aqui apontar as ausências, não é necessário preenchê-las.
Um outro ponto me parece menos perdoável. A parte 2 do livro se propõe a compreender os caminhos pelos quais as ideias de Jane Jacobs chegam ao Brasil, mas constrói essa discussão quase
toda a partir de São Paulo. Para encaminhar melhor a questão, seria necessário ir muito além.
Acredito que as ideias sistematizadas nessa seção constituem um bom ponto de partida que merece ser desenvolvido em uma abordagem em escala mais propriamente nacional. É certo que este livro tem o objetivo de apontar caminhos, nunca se pretendeu conclusivo ou
definitivo. Apenas dois livros de Jane Jacobs foram traduzidos no Brasil até agora, e a literatura existente sobre ela é quase toda em inglês. Situando Jane Jacobs cumpre a função de adensar o
conhecimento existente sobre a autora em língua portuguesa. É também uma amostra das imensas potencialidades existentes em nossas universidades, no formato de inquietação e criatividade de
seus estudantes.

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