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Economia Urbana 24.07.2018 — 6:26 am

No jogo entre o público e o financeiro, eu torço para a cidade

Netflix
Billions, série do Netflix que tem Paul Giamatti (à esq.) como procurador e Damian Lewis (à dir.) como gestor de um fundo de investimentos / Foto Netflix/ Divulgação
Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Contexto: Estamos todos preocupados com o que será das lojas de rua ante o crescimento do comércio on-line. Em 2017, nos Estados Unidos, quase sete mil lojas foram fechadas, superando as pouco mais de seis mil que baixaram as portas em 2008, com uma diferença fundamental: 2008 era o auge da crise dos derivativos e em 2017 o PIB americano cresceu 2,3%. Atento, o bilionário Warren Buffett vendeu quase um bilhão de dólares em ações do Walmart. Buffett já foi o homem mais rico do mundo. Hoje o posto é de Jeff Bezos, fundador da Amazon, gigante do comércio on-line, com US$ 50 bi na frente do segundo colocado, Bill Gates, da Microsoft.

No jogo entre poder público e financeiro, eu torço para a cidade. Falo de Billions, uma das minhas séries prediletas no Netflix, onde um membro do órgão equivalente ao nosso Ministério Público e um operador do mercado de capitais se antagonizam às últimas consequências.

O roteiro é caprichado, fruto de pesquisa profunda. Para mostrar aonde o poder e o dinheiro podem chegar, mostram a autoridade, no limite, ameaçando o cidadão que não apanha o cocô do cachorro, e foram buscar uma receita francesa altamente sofisticada, atualmente proibida, onde a matéria-prima é um passarinho de seis centímetros chamado ortolan, e cujo preparo faz a engorda dos gansos para o foie gras, comparativamente, parecer um cafuné.

O ortolan do bilionário é preparado em casa por um cozinheiro particular, que entre outras atribuições tem a de repetir com aromas e sabores as sensações mais caras ao patrão, como o hambúrguer ou a pizza que ele gostava de comer na rua quando podia passear livremente.

E como não querer passear na cidade escolhida para a série? Se Billions tem o poder de esnobar, é quando desfila a riqueza da diversidade de Nova York. Tida como centro do mundo, a cidade faz o meu bairro, no centro expandido de São Paulo, parecer um subúrbio monótono e carente.

Sauna russa com especialistas para lanhar a freguesia com ramos de ervas especiais? Tem. Academia chinesa de tênis de mesa com treinadores campeões do esporte? Também tem. Livraria pequena com títulos novos ou raros e dono atendendo no balcão? Várias.

Para não ficar só em Billions e Nova York, vou botar mais uma série, a catalã Merli, que empresta o nome de um professor de filosofia boêmio e popular que adora as praças e parques, churros e chouriços de Barcelona. O que mais me chamou a atenção na cidade foi ver que, depois da aula, no meio da tarde, as meninas se reúnem num salão de bilhar.

Fiquei imaginando qual seria a chance de um salão de bilhar acessível para estudantes do terceiro colegial no meu bairro. Sob as regras atuais, creio que zero e, de fato, não há nenhum. Como manter um serviço que demanda tanto espaço para tão pouca gente por exemplo na Lorena, onde o aluguel de uma loja com 500 m2 está em R$ 50 mil mensais?

A gente fala muito das companhias aéreas, necessárias para visitar Nova York ou Barcelona, e do aperto que elas vêm impondo aos passageiros. Mas me parece que o problema não está só a bordo. Em São Paulo os lugares em terra estão na mesma linha, trabalhando com overbooking ou inviáveis. Pior: em qualquer estrato econômico, a pasteurização é absurda. Todos vendem a mesma coisa. Nos pontos de ônibus e terminais, bombonieres; nas esquinas, botecos idênticos; nas calçadas, churrasquinho, milho, café com leite e pão doce. Nos três casos, o empreendedorismo individual fica na aparência: a maior parte é controlada por esquemas industriais.

Nos bairros caros, ondas passageiras: bolo caseiro, paleta mexicana, iogurte gelado e, no momento, hambúrgueres. Perenes e crescendo, de novo, só os impessoais esquemas de rede: farmácia, açougue, padaria, agências bancárias – que agora planejam oferecer café. Melhor que nada, mas no meu sonho a diversidade era diferente. Tinha teatro, cinema, sinuca, cerveja, quitanda, modista, florista, galeria, livraria, cabaré.

Assisti pela internet ao debate promovido pelo Esquina sobre O Comércio na Cidade. Pro meu gosto, o Mauro Calliari abordou o tema essencial, citando Jane Jacobs. Como é sabido por esta freguesia, ela falava da importância da diversidade para a vida na cidade, de misturar áreas residenciais e comerciais. Eterno descontente, creio que não basta e sonho com a diversidade residencial, isto é, possível a múltiplas faixas de renda, mais a diversidade comercial, como a de Nova York, e ainda a diversidade individual, única capaz de criar identidade local, tudo junto e misturado.

Mas será possível aliar o poder público ao financeiro para fazer uma cidade melhor? Mestre Calliari apontou alguns caminhos (com trocadilho), que podem evitar o futuro sombrio que o app de entregas anuncia como positivo avanço tecnológico: a volta do escravo que entrega tudo na sua casa enquanto o senhor anda na esteira ergométrica, mais ou menos como acontecia na São Paulo colonial.

As ruas Oscar Freire e João Cachoeira foram transformadas pelos comerciantes aliados à prefeitura. Às duas, somo Avanhandava e Amauri e, mais recentemente, um trecho da Jerônimo da Veiga, que teve vagas de carro substituídas por calçadas mais largas a pedido, pasmem, dos restaurantes. Não sei se alcança o quarteirão da filial do Ritz, mas deveria. No original, assim como no Frevo e no Bar Balcão, não há e nunca houve facilidade para estacionar carro. São três dos mais longevos do Jardim Paulista.

Mauro também falou da Operação Urbana da Faria Lima, que rendeu R$ 2 bilhões aos cofres municipais, parte deles investidos em melhorias no Largo da Batata e em calçadas da região, com destaque para a rua Guaicuí, que dobrou a largura dos passeios. Resultado: em um ano a rua bombou, ganhou vários estabelecimentos e virou ponto de encontro e destino obrigatório em Pinheiros.

Falou ainda do Plano Diretor, que cria incentivos para prédios que preveem fachadas ativas, com vitrines ou a permeabilidade do Jan Gehl, animando a cidade e tornando as ruas mais convidativas e seguras.

Eu acrescentaria o IPTU Progressivo, oficiosamente congelado pela gestão atual. Com ele, o imposto sobre o imóvel sem uso galopa, de modo a cobrir o custo da função social não exercida. Em alguns casos o montante alcança o valor da desapropriação. Em outras palavras, ele empurra o mercado para o mercado, encarecendo a especulação e aproximando o preço de venda ou locação do valor de… mercado. Assim, quem sabe, aquele salão de bilhar na Lorena poderia ser possível.


Léo Coutinho
, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

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